perceber um punhado de sol
no retrovisor lateral
mitigar o asfalto
desbastar o coração:
para chegar a qualquer lugar
é preciso, antes de tudo, partir.
azul silencioso que não cessa
árvores retorcidas agro distorcido
brancos bois moedas vivas
economia da atenção:
para sair de qualquer lugar
é preciso, antes de tudo, estar.
*
vasculho nos muitos buracos da capital
um verso brilhante com gosto de metáfora
nada encontro a não ser terra insistindo em vir à tona
já que tudo quer respirar: pó, pedra & betume.
assisto à estridulação dos carros
contemplo o balé dos relés de seta
o guincho da frenagem ave de rapina, de rapidez
tudo quer comunicar: a solidão nas grandes cidades
*
Em casa, já devoradas as horas todas
não encontro argos penélopes telêmacos
mas tomo o banho dos deuses e durmo o sono dos justos:
amanhã tem mais vinte anos de terra e de trabalho.