E N V I É S
quarta-feira
Caminho
Verde
variações sobre Lorca
É para verdes que a quero verde
Em seu vestido de ramagens e sonhos.
Vejas, o amor de vez, fruto que se colhe aos poucos
Verdes ventos, verdes plantas...
Vejas que te quero ver
De novo e de perto
Ver amadurecer nosso afeto
Em tardes inda não vistas
Verdade que te quero verde
Como a esperança, minha bandeira:
Verdes ventam nossos planos
Verdes vamos caminhando assim...
Verde, e eu quero ver-te
Vestida assim:
Em mim
Chegada
terça-feira
Como amar-amor X
Às vezes, amor, penso
Com o que te pareces
E te chamo deComo amar-amor IX
Amo como poema
E como receita
Amo como sentir
Nas mãos o caldo
Para o ajuste do sal
E amo como
Palavras temperadas
De metáforas
Escorrendo pelas mãos
Como amar-amor VIII
Amo como se dizer que te amo
Fosse meu vernáculo
Como se a palavra amor
Fosse texto e imagem
Sentido e sensação.
Mas amo também fora
Da gramática:
Anseio um poema que te diga
Com todas as cinquenta e quatro figuras de linguagem
Que te amo
Como amar-amor VII
Amar como se inventar uma língua
Fosse sobreviver
Ao tempo
Como se todo léxico nomeasse
Nada além de amor
Como amar-amor VI
Quando, depois de um dia cheio,
O cinza-azulado começa a preencher
O quarto em que confessamos o amor
Na cama em que nos encaixamos
-Um quebra-cabeça de peças antes sonhadas-
É que tua pele me sussurra sentimentos
E a minha boca e a tua já
Nada mais tem a dizer.
sábado
Como amar-amor V
Eluir um poema
Até que se distingua
Palavra de ação.
Diluir um verso
Para que sobre dele
Apenas o que não
Pode ser dito.
Observar em lamínulas
As amostras microscópicas
De onde se origina todo o amor
As células: vida se constituindo
Os sentimentos se aglomerando.
Amar, como se neurotransmissores
Reações químicas
E todo o corpo
E toda a matéria
Fosse senão sonho
Fosse tão somente amor.
Como amar-amor IV
Há muito o que fazer em casa:
Louças e roupas a lavar;
Além de varrer; tinir, transpor.
Na firma, trabalho é o que sobra:
A escrita, a escuta,
Docs pdfs txts xls
Na academia, os exercícios; no mercado,
lista de compras; na sorveteria: chocolate ou baunilha?
Mas eu
Incólume
Penso no amor,
Escrevo um poema.
Como amar-amor III
Jurei de pé junto:
"Amor? Só na próxima encarnação!"
Bradei aos quatro ventos:
"Amor? Pois eu quero é paz!"
Escrevi um tratado:
"Amor? Conta outra!"
Tsc. Psicologia reversa.
Era em tempo: falar no amor três vezes ele aparece...
E não tem capacete que proteja
e não tem santo que livre:
Amor escapa escorre espoca escreve
Anota!
Como amar-amor II
amar como um cão
que, ignorando a ausência
da cauda partida,
a abana insistentemente.
amar como uma ave
que traça no céu não uma rota
mas o absurdo
do imprevisível ar.
amar como um peixe abissal
que, desconhecendo a luz,
a inventa em seu próprio corpo
ferramenta perene da fome.
amar como pedra rocha bruta mineral raro
(que sabemos nós?)
como sedimento das eras
matéria prima de universo
ligação química
- serotonina; poema.
Como amar-amor I
amo como quem
numa corrida de cavalos
dispara por último
por puro prazer de lentamente
percorrer a pista
sem intenção nenhuma de chegar.
amo como quem vive da espera
a hora de escrever um verso
soltar a voz
respirar
e depois da pausa: tudo de novo.
amo como se não soubesse amar
como quando era criança
e na escola me ensinaram as letras
que eu já tinha aprendido em casa.
amo como se o amor fosse natural
um dia, ainda menino,
cuidei de um pardal até que voltasse a voar
quando chegou a hora
amei como se fosse asa
amei como se fosse espaço.
Aviso de Amor
afixado na parede carcomida
de uma birosca em bairro decadente
se escrevia a seguinte frase:
amar com urgência, mas sem pressa
e eu, que corro afobado tentando chegar logo
que tropeço nas palavras (para quê tantas sílabas?)
que só leio haicais
me demorei lendo o que se dizia.
amar com urgência
como se houvera um dilúvio
e tivéssemos que escolher entre declarar o amor
ou nos afogarmos.
como se, em espaço sideral,
o astronauta suicida revelasse sua paixão
antes de tirar seu capacete.
mas sem pressa, que amor é pra ser arado
só ama quem crê no fruto da árvore inda não plantada
sem pressa, como amam as mães os filhos no ventre
como aguardo que repouses tua mão no meu sonho.
segunda-feira
Labor
A poesia não sabe o quanto te devemos.
(Rui Costa)
trabalhava e já ia parte da manhã
no expediente na repartição
entre um café e uma demanda
um relatório e mais um gole
quando li pela primeira vez
num perfil de rede social
versos de rui costa
anos atrás
precisamente vinte
jamais eu saberia de rui costa
poeta em Porto
que deixou o mundo à deriva cedo demais
sei de rui costa por causa da internet e do
bar do acaso - a pausa no expediente a exasperação do serviço
técnico burocrata o modo de vida produtivista ao qual somos submetidos
arrochados até sermos exauridos - que me deixou em vias de escrever um poema
(que não era esse e nem hoje e que ficou guardado na memória enquanto produzo planos de ação preencho planilhas no excel alimento sistema)
daqui do meu lugar, no interior dum brasil que dá notícias de que nunca chegará a lugar algum
carrego os versos de rui costa num smartphone
e rememoro a poesia que me livra da vida de todo dia