quinta-feira

Odisseia

perceber um punhado de sol 

no retrovisor lateral

mitigar o asfalto

desbastar o coração: 

para chegar a qualquer lugar 

é preciso, antes de tudo, partir.


azul silencioso que não cessa

árvores retorcidas agro distorcido

brancos bois moedas vivas

economia da atenção: 

para sair de qualquer lugar 

é preciso, antes de tudo, estar.


*


vasculho nos muitos buracos da capital 

um verso brilhante com gosto de metáfora

nada encontro a não ser terra insistindo em vir à tona

já que tudo quer respirar: pó, pedra & betume.


assisto à estridulação dos carros 

contemplo o balé dos relés de seta

o guincho da frenagem ave de rapina, de rapidez

tudo quer comunicar:  a solidão nas grandes cidades


 *

Em casa, já devoradas as horas todas

não encontro argos penélopes telêmacos

mas tomo o banho dos deuses e durmo o sono dos justos:

amanhã tem mais vinte anos de terra e de trabalho.





Post Mortem

Há noventa anos algumas balas de fuzil

(ninguém contou quantas)

atravessavam o corpo de Garcia Lorca

que tinha 38 anos

e livros pela frente 


Fazer arte talvez seja

morrer sempre e de qualquer forma

nas mãos dos acostumados a matar

na boca dos profetas do medo

no silêncio de quem cala&consente


Toda vez que matam um poeta

no entanto

quem finda é o algoz:

as palavras permanecem 

rubras de sangue e mistério

plenas de ritmo e som


reverberando no apagar das luzes.


18/08/2026




algum poema

sou seis anos mais novo

que matilde campilho

mas daqui a seis anos

não serei nada próximo

de matilde campilho

primeiro porque não sou 

mulher português ou bom poeta

segundo porque

enquanto matilde lançava jóquei 

eu enrolava cigarros 

numa varanda 

na rua são benedito.



quarta-feira

Caminho

Há sempre alguém a sua espera
Diz a placa na BR 262
Eu que sei:
Talvez o sinuoso cabelo
Os óculos procurando horizontes
Quem sabe até mesmo teu maxilar
Parecido com as escarpas
Pelas quais transito
Que sei eu? 

Também espero:
O emaranhado dos dedos cerrados
Tuas palavras, rio em que me banho
Seu corpo onde escuto vida vida vida


Verde

                                                                          variações sobre Lorca

É para verdes que a quero verde

Em seu vestido de ramagens e sonhos.

Vejas, o amor de vez, fruto que se colhe aos poucos

Verdes ventos, verdes plantas...

Vejas que te quero ver 

De novo e de perto

Ver amadurecer nosso afeto

Em tardes inda não vistas


Verdade que te quero verde

Como a esperança, minha bandeira:

Verdes ventam nossos planos

Verdes vamos caminhando assim...

Verde,  e eu quero ver-te

Vestida assim:

Em mim

Chegada

Queria mesmo era que
Ao chegar em casa
Fosse você à minha espera
Não esse espelho
Grande, de corpo inteiro
Que me revela a minha imagem
Um jeito cansado da lida diária

Queria mesmo era
Que fosse seu corpo sobre o meu
Nessa cama imensa
E não Tereza, a gata,
Que dispensa pelos em minhas roupas
E mia, esgarçadamente,
Esperando meu toque paciente

Queria mesmo
Era ao teu lado
-Tua pele teu viço tua tez
Que distinguo e elejo na memória e no sonho-
Estar sentado tomando o café de sempre
Queria
Mesmo que eras 
Passassem 
E fôssemos 
Apenas nós, nada, palavra amor

terça-feira

Como amar-amor X

Às vezes, amor, penso 

Com o que te pareces

E te chamo de 

chuva em fim de tarde 

domingo de preguiça

passeio no parque


Te chamo begônia maculata

verde sálvia 

terra arada

primavera nos dentes









Como amar-amor IX

Amo como poema

E como receita

Amo como sentir 

Nas mãos o caldo

Para o ajuste do sal

E amo como 

Palavras temperadas 

De metáforas

Escorrendo pelas mãos

Como amar-amor VIII

Amo como se dizer que te amo

Fosse meu vernáculo

Como se a palavra amor

Fosse texto e imagem

Sentido e sensação.


Mas amo também fora

Da gramática:

Anseio um poema que te diga

Com todas as cinquenta e quatro figuras de linguagem

Que te amo

Como amar-amor VII

Amar como se inventar uma língua

Fosse sobreviver

Ao tempo

Como se todo léxico nomeasse

Nada além de amor

Como amar-amor VI

Quando, depois de um dia cheio,

O cinza-azulado começa a preencher

O quarto em que confessamos o amor

Na cama em que nos encaixamos

-Um quebra-cabeça de peças antes sonhadas-

É que tua pele me sussurra sentimentos

E a minha boca e a tua já 

Nada mais tem a dizer.


sábado

Como amar-amor V


Eluir um poema

Até que se distingua

Palavra de ação.


Diluir um verso

Para que sobre dele

Apenas o que não

Pode ser dito.


Observar em lamínulas

As amostras microscópicas

De onde se origina todo o amor

As células: vida se constituindo

Os sentimentos se aglomerando.


Amar, como se neurotransmissores

Reações químicas

E todo o corpo

E toda a matéria

Fosse senão sonho

Fosse tão somente amor.

Como amar-amor IV

 

Há muito o que fazer em casa:

Louças e roupas a lavar;

Além de varrer; tinir, transpor.


Na firma, trabalho é o que sobra:

A escrita, a escuta,

Docs pdfs txts xls


Na academia, os exercícios; no mercado,

lista de compras; na sorveteria: chocolate ou baunilha?


Mas eu

Incólume

Penso no amor,

Escrevo um poema.

Como amar-amor III

 

Jurei de pé junto:

"Amor? Só na próxima encarnação!"

Bradei aos quatro ventos:

"Amor? Pois eu quero é paz!"

Escrevi um tratado:

"Amor? Conta outra!"


Tsc. Psicologia reversa.

Era em tempo: falar no amor três vezes ele aparece...


E não tem capacete que proteja

e não tem santo que livre:

Amor escapa escorre espoca escreve

Anota!

Como amar-amor II

 

amar como um cão

que, ignorando a ausência

da cauda partida,

a abana insistentemente.


amar como uma ave

que traça no céu não uma rota

mas o absurdo

do imprevisível ar.


amar como um peixe abissal

que, desconhecendo a luz,

a inventa em seu próprio corpo

ferramenta perene da fome.


amar como pedra rocha bruta mineral raro

(que sabemos nós?)

como sedimento das eras

matéria prima de universo

ligação química

- serotonina; poema.