quinta-feira

Odisseia

perceber um punhado de sol 

no retrovisor lateral

mitigar o asfalto

desbastar o coração: 

para chegar a qualquer lugar 

é preciso, antes de tudo, partir.


azul silencioso que não cessa

árvores retorcidas agro distorcido

brancos bois moedas vivas

economia da atenção: 

para sair de qualquer lugar 

é preciso, antes de tudo, estar.


*


vasculho nos muitos buracos da capital 

um verso brilhante com gosto de metáfora

nada encontro a não ser terra insistindo em vir à tona

já que tudo quer respirar: pó, pedra & betume.


assisto à estridulação dos carros 

contemplo o balé dos relés de seta

o guincho da frenagem ave de rapina, de rapidez

tudo quer comunicar:  a solidão nas grandes cidades


 *

Em casa, já devoradas as horas todas

não encontro argos penélopes telêmacos

mas tomo o banho dos deuses e durmo o sono dos justos:

amanhã tem mais vinte anos de terra e de trabalho.