sábado

Cantiga

Entre entulhos e
Restos de palavras
Uma luz que brilha:
Meu poema só
Minha língua sonha
Mil revoluções

passagem no tempo VI

o vento macera nossos pensamentos
com suas mãozinhas ocas
etéreas como o sonho que
se dissipa em mim
e a tarde cicia
-entre os dentes sugere o que não se pede;
acalanta o que resiste -
e balança
no morno da tarde
na luz que ocupa:
desloca o breu.

há entre meus dedos
um poema em papel
dobrado
não ouso escrevê-lo:
meu tempo cingido de memórias
apagaria cada verso
com a sombra das circunstâncias.






terça-feira

Fera

a poesia é como um felino que se chega
e roça em minhas pernas
ronrona - um sonho brando
macia como a esperança a poesia
se envolve por onde tropeço
mas quando tento passar-lhe a mão
esse bicho vira fera
um leão rasgando meus punhos
doloridos punhos de poeta
e ruge versos oblíquos
secos e perdidos dentro do meu cotidiano

então surges, amor, com tua lança e flanco azul
mãos em riste, halo idílico
e já não nos movemos - fera e eu
e já esse animal sossega e vira palavra
pra te adornar
e adormecer.


sábado

Sonho

Uma luz tênue decora a parede
no escuro quarto há apenas
as linhas refletidas da janela
um móvel antigo em que guardo meus pertences
teu corpo e o meu.
Dormimos o sono dos vencidos
e existe em nós a possibilidade de renovação
uns sonhos compartilhados
além de tua respiração, franca como teus olhos
e os meus, guardando teu corpo.
Embora haja noite, temos o dia pela frente
- esse mesmo que surge pela janela riscada pelas grades:
 Um sol rompendo nossos trópicos.
Há em ti, naquilo que não dizes, a mesma beleza 
De um céu que não se anuncia
E ficamos os dois, afinal, nesse lastro
                                                               [de tempo, espaço e amor
Que se nos invade de mansinho, pé ante pé.

segunda-feira

Pequena Ode

Há a verde grama em que pasta a noite
Há os arbustos precedidos pelo orvalho
Há o frescor do tempo
A brisa suave dos teus modos
- Pastoreio teus cabelos
E se perdem meus olhos em tua paisagem
O enlevo das mãos, a delicadeza dos gestos:
Te adornam, singelas, minhas palavras incensadas
E em tua voz de musselina encontro a paz

quinta-feira

Azul

adormeço em teu sonho azul
como um mar que me traga
uma onda que quebra em minha areia
dispersa em diâmetros de minha poesia
superfície em que mergulho
a procura do que me sustenta e equilibra
feito um pássaro em voo tácito
atrás de um repouso cálido de horas
descanso em teu halo 
azul como a certeza de um gesto calmo:
mira-me e acerta
(e teus olhos iluminando minha escura noite
e teus olhos - os meus onde estão? -
morando em meus versos:
casa para te adornar)
desperto em teu cotidiano
azul como as tardes depostas pelo
horizonte das vontades

lá, onde não se anunciam as coisas que já sentimos.

sábado

Em meu poema

dou voz no meu poema
à pele que sussurra teu toque
aos ossos que sustentam meu corpo
em seu lugar de fala
aos pelos eriçados
que espreitam o desejo
em meu poema há teu verbo
e antes o que calas
há teu passo célere
os meus te acompanhando
e para onde vamos
pergunto em meu poema
mas não, não respondas
apenas habite em meus versos
na métrica que não tenho
no papel tantas vezes rabiscado
(em que surgem tuas consoantes
teu nome se formando como um rio
caudaloso & claro)
surja nas entrelinhas
- espaço interdito em que
te beijo
e te abasteças do que não te digo;
escrevo.

quinta-feira

Impressionista

em teu quente colo repouso
confundem-se em minha boca
palavras que não criei
para denominar-te, mulher:
és por si só a força de mil sonhos
e todos eles me segredam teu nome
marulham meus dedos
formando versos,
um poema que te espreita:

nele caberá teu corpo
ilha em que me perco e me construo
(teu corpo: matéria singela
derivando no espaço de minha memória)
e também aquilo que de ti exala
tua voz recendendo
sons que me acalantam
tua parcimônia e teu desejo

o amor, em sua fronteira movediça
nos sugere uma bandeira
que flamula
como o tempo de um encontro
e o toque da saudade.


quarta-feira

Nocturno n. 6

o ladrar dos cães fere a noite
há um mormaço inerte que adormece
sobre todos, sobretudo na cidade
cujas vias públicas mal iluminadas
referendam o triste tempo em que vivemos:
ecoa minha voz pelos vãos das esquinas
- um sonho em que grito nomes proibidos
e teu corpo ali na sombra quente
suado & sacro
feito um arquipélago preservado
em meio à deriva de existências

enquanto durmo
recito poemas em línguas mortas
sou um sonâmbulo semeando
versos que ouvi e decorei
sobre o que eras escuras eras em que
estive distante
cosendo tua lembrança
singrando perdido
pelas tontas vias do
que não vi


domingo

Retrato da Casa Adormecida

brincam as crianças na varanda
a luz e o canto
riso farto na noite
os mais velhos se reúnem
à mesa há conversa a comida
celebrando o tempo
a possibilidade de ser gente
e estar vivo
bebe-se generosos goles
a cerveja nossa de cada dia
as latas garrafas amontoadas
e o fim de festa
recolhem-se para seus cômodos
os mais velhos
os animais fora de casa
os jovens pela sala
dormem todos num sono tranquilo
dorme a casa
acolhida no escuro
nas sombras do sereno
como tantas outras
em tantos lugares
pois é madrugada
pairam sonhos 
eclode lentamente o silêncio

- só eu não repouso em meu poema

Ausência

na tua ausência
criei o mundo
das sombras que eram tuas
fiz luz - à te procurar
rasguei estradas
e nas fissuras encobertas pelo solo
tu não habitavas
deixei crescer os matos
fundei raízes para que permanecesses
mas partias
levando contigo o espaço das horas
inventei chão
para checar tuas pegadas
elaborei água
para te banhares quando cansada
mas tu não deste as caras
e entediado inventei as gentes
procurava rostos que se parecessem com o seu
que me lembrassem teu sorriso desconhecido
um olhar não descoberto
em vão:
na tua falta
esqueci o mundo

quarta-feira

Depois

depois, o cigarro.

cinzas sobre nosso segredo,
você disposta sobre o lençol
[escuro
como uma presa que eu acabei
de devorar.

depois, o sono.

dormias nua sobre teu cansaço
vencida pela mecânica do sexo:
tantas maneiras e o vício e a fumaça.

depois, partida.

mas antes que te aprumasses
(era sempre o mesmo gesto:
te levantavas e, preguiçosa,
repetias as desculpas de sempre.
Já não te pedia para partir, apenas
para que voltasses com tua forma
e teu colo)
te segurava pelo braço
-a rotina sugeria o esquerdo-
e te puxava para a cama
ainda descoberta
e mais uma vez
num exaspero de solidão
nos consumíamos
o corpo o cheiro o suor o gosto o toque
o sussurro o desejo o momento o líquido

e depois

você saindo por aquela porta
esquecendo outra quinquilharia
só pra dizer que "talvez vem buscar"

depois.

quinta-feira

Aquarela

teu batom marcando meu afeto
e teus olhos
à deriva em nosso encanto
onde cabem as confissões
do misterioso gosto
das palavras
que viram sonhos
e você, na minha noite
embaçada: luzes & vontades
são as cores que pintamos
uma aquarela de planos
misturadas nossas pernas
nosso sexo, nossas bocas
formando cores novas
e depois, ou mesmo antes,
a cerveja (escura ou clara?)
a conversa
o riso
fatal como nossos corpos:
sinuosos de prazer.

segunda-feira

waiting for a sun to shine

enquanto espero
faço o que sei:
desesperar
fumo todos os cigarros
batuco um samba na mesa
(a mesma que sugere o
espaço em que também não estou)
escrevo versos que não rasgo
- deleto
e me encontro sujeito de mim
declino de teus olhos
os que não me veem 
teu paço incólume
a saliva mecânica que aglutina tuas palavras
sentado sobre a noite que chega arrependida
menos que eu, claro
aguardo a fumaça se dissipar
e com ela os sinais do que fomos
e não lembrávamos

Visita

O amor esteve prestes a entrar
Estava na calçada
Fumando plaza
E eu o via de soslaio pela janela da sala
Chegou a procurar as chaves
Tentou destrancar o portão
(E esse cadeado que mantenho sempre seguro)
Não havendo possibilidade o amor esperou
Por cinco minutos - não bateu: segurava um cigarro e um livro do Neruda
Depois vi o amor descer a rua
Começava a esfriar
Não sei se virou a esquina
Ou se alojou em algum boteco
Mas foi-se embora das minhas vistas
E perdi a chance de o cumprimentar

Sozinho em casa
Sentei-me no sofá
Aguardei a correspondência
E adormeci com a triste memória
De sua feição.