domingo

Imagem

Nos bandós do meu peito
e nos seixos da saudade
encontra-se você

Na carne mordida
pelos dentes do tempo
e no abraço de beleza
que o teu modo exala
encontra-se teu corpo

No espaço em que não estamos
- nossa vontade, a matéria do nosso desejo
você surge
sorriso largo
olhar manso
com teus rococós,
é apenas ilusão

Fora de mim eu não te tenho

Da tua voz, o que conheço é o inaudível
que me chama
e respondo
e vou

Perto de você me perco.

segunda-feira

Sonho de um delírio

eu sou onde me caibo:
no espaço anunciado de agora
&
nas umbrosas possibilidades do tempo

estou no que posso ser:
uns braços flácidos
nome rg
indicando que existo
como tantos outros

aconteço no mundo
carrego meus fardos
dolorosos que nem a
morte dos sonhos de infância
e continuo firme e forte
são e salvo

convivo com o que me falta
(a areia dos dias
desliza pelos meus dedos)
e participo dessa fantástica
experiência que é estar vivo

nos diâmetros das minhas palavras
há a tristeza contemplativa
das coisas que se perderam

e fico
firme e forte
são e salvo.



sábado

Caracol

como casa
abrigo-me em ti:
estatura mediana
olhos de noite
e teus cabelos
caracol
em teus cantos

no teu plexo
(convém abri-lo)
eu me perco
-não vou me encontrar
e deslizo
menino

como casa:
trago-te para onde estou
trago-te inteira
num gole só
eu me deixo
eu me seguro

- estrangeiro

faço caso.
te faças moradia
que eu chego
deixa eu ser,
caracol

e bora.

domingo

Canto em teu corpo

insiro-te na noite
no enlevo de sombras
que te anunciam
mas não és velada:
protejo-te
como um caibro
sustentando nossas permanências
e nossa matéria com gosto de tempo

(a delicada voz que de ti emana
e emancipa meu amor)

dispo-me logo que chega o dia
para que me vejas
teu, corpo ígneo
flamejando à tua espera
para que me sejas
canto
e paixão

(e onde há tua sílaba, monódico meu peito
te conclui)

terça-feira

Gesto para um poema

Afinal, ficamos assim
Não dissemos palavra
E não coube um nome
Embora tuas unhas vermelhas 
                                    [desposassem minha pele
                                    [e a noite aparecesse 
(com ela tua partida).

Permanecemos, gente
Com nossas incertezas
Haveria título para o desconcerto das horas?

Éramos contratempo
E também em teus versos
 - Aqueles que não cantavas, sonhavas
Nos dissipamos no espaço de memórias:

Sobre a escrivaninha, no armário confuso

No teu afago de amanhã.

Quando vinhas
(Tua boca repleta de outras noites)
Trazias nas mãos tua oferta espontânea:
O gesto que adorna e embala
Estrelas que contei.




segunda-feira

Sujeito

eu, sujeito,
parte integrante da oração,
conjugo a vida,
dou graças ao verbo
que exala da língua
e cria o
amor, substantivo,
no ato de ser o mundo

domingo

Passeio

O trinado das maracanãs na morna tarde
Nuvens tontas esgarçando o céu
Carros brancocinzapretos e as conjuras da pressa
Oitizeiros embaúbas
Poeira & tapume; concreto & lama:

- tudo habita na tua ausência.

Quando vens, no entanto,
Com teu cheiro de manjericão
E tuas mãos apascentando meus cabelos

Quando estás
(quieta, repousam em ti meus sonhos)
E te permites o amor de véspera

O que faz moradia são palavras
Para teu remanso breve
Como um passeio em tua carne

sábado

Crônica

pariu
mas não cuidou
quem criava era
a Demildes da 22
quando pequeno
mal dava trabalho
criado à leite quente
e comida boa
já grandinho
aí esse desandou!
ia pra todo canto
e não tinha cristo
pra fazer parar
em casa
era só pra dormir
- e dormia, até demais, olha...
cresceu e vivia atrás de umas
não sossegava o facho
brigava e tudo, pense?
até que deu uma sumida
e Demildes veio chorando
contar que tinha sido envenenado
pelo Seu Márcio do 35

bicho bom era aquele,
bicho praga é o homem.

quinta-feira

Cotidiano

ecoa até mim
vindo através do vento
o chilrear de pássaros
distintos no calor do dia
e atarantadas buzinas
sirenes

- estou só e resisto, de mim ninguém me tira

trago na memória teu corpo
saveiro no mar
salgado como a cocaína
e as nossas ressacas
scotch palavras delírio

- tantos nós na gente tanto em nós

mas isso não importa:
estou sozinho no quarto
estou sozinho na América 
etc.
e você já foi tarde
me deixando um beijo
com gosto esquecido de tempo

-tudo dorme, à exceção da Ana C. que
me espia da estante.

quarta-feira

Véspera

limpo a casa, lavo a louça, acarinho o gato.
preparo a janta, faço um café, assovio.
sento-me no sofá, acendo um cigarro, fumo.
tomo uma cerveja, arranho o violão, canto.

reflito sobre
as variáveis implicações
do destino:
há sol, há vida, há gente,
outdoors iluminados, buzinas,
prédios altíssimos,
casais que se amam,
crianças chorando
e cães que latem
e mães que sofrem a falta do filho.

ando só
desvio os olhos ao passar pelas pessoas
finjo falar ao telefone quando há conhecidos perto de mim
não ando de bicicleta
quase morri afogado
bebo em demasia

à noite, quando me deito,
reviro-me na cama e raramente durmo.

mas há em mim o desejo de viver
e com ele guardado na carteira
vou caminhando ao desconhecido
rumor das horas que se anunciam
no horizonte das nossas paixões.

terça-feira

Confins

Estamos sempre indo
Para onde quer que seja
Como vão os bois no pasto
- A infância, memória que não houve:
muge o dia lento, tempo galvanizado
erigido o céu e
                           [um bando de nuvens que passam ligeiras;
ao longe o voo das rapinas acomodando a vida -
Como vão os cabos de energia
Sempre para algum lugar distante
Vamos nós, vão-se os outros
Vai uma ideia, atravessando nossos confins
Migratória em plano tácito
(O que permanece, deriva:
Ficam as rochas encostas velhas árvores)
- Tudo o que há, e que podemos ser
No mundo de circunstância breve
E espírito torto.

segunda-feira

Poema Inconcluso

Da janela em que me encontro
-Gradeada
Atravessado por uma luz cava
Vejo o que o espaço me permite ver:
Dorme, nas varandas dos altos prédios
e também nas torres de comunicação
(em aviões noturnos que se despedem talvez)
O teu nome que não cabe em minha boca.

Ao redor
(É noite, cambaleia a luz
os sonhos e estrelas cambaleiam)
Tenho um pressentimento de véspera
Percebo o mundo com seus estratagemas
Sorrio ao acaso que me abandona
E encerro as pálpebras de ferro e vidro
Estou só
Mas há em mim
o silêncio do que vive.

Agora vim pra cá.

Migrei de lá: