domingo
Retrato da Casa Adormecida
Ausência
criei o mundo
das sombras que eram tuas
fiz luz - à te procurar
rasguei estradas
e nas fissuras encobertas pelo solo
tu não habitavas
deixei crescer os matos
fundei raízes para que permanecesses
mas partias
levando contigo o espaço das horas
inventei chão
para checar tuas pegadas
elaborei água
para te banhares quando cansada
mas tu não deste as caras
e entediado inventei as gentes
procurava rostos que se parecessem com o seu
que me lembrassem teu sorriso desconhecido
um olhar não descoberto
em vão:
na tua falta
esqueci o mundo
quarta-feira
Depois
cinzas sobre nosso segredo,
você disposta sobre o lençol
[escuro
como uma presa que eu acabei
de devorar.
depois, o sono.
dormias nua sobre teu cansaço
vencida pela mecânica do sexo:
tantas maneiras e o vício e a fumaça.
depois, partida.
mas antes que te aprumasses
(era sempre o mesmo gesto:
te levantavas e, preguiçosa,
repetias as desculpas de sempre.
Já não te pedia para partir, apenas
para que voltasses com tua forma
e teu colo)
te segurava pelo braço
-a rotina sugeria o esquerdo-
e te puxava para a cama
ainda descoberta
e mais uma vez
num exaspero de solidão
nos consumíamos
o corpo o cheiro o suor o gosto o toque
o sussurro o desejo o momento o líquido
e depois
você saindo por aquela porta
esquecendo outra quinquilharia
só pra dizer que "talvez vem buscar"
depois.
quinta-feira
Aquarela
e teus olhos
à deriva em nosso encanto
onde cabem as confissões
do misterioso gosto
das palavras
que viram sonhos
e você, na minha noite
embaçada: luzes & vontades
são as cores que pintamos
uma aquarela de planos
misturadas nossas pernas
nosso sexo, nossas bocas
formando cores novas
e depois, ou mesmo antes,
a cerveja (escura ou clara?)
a conversa
o riso
fatal como nossos corpos:
sinuosos de prazer.
segunda-feira
waiting for a sun to shine
Visita
O amor esteve prestes a entrar
Estava na calçada
Fumando plaza
E eu o via de soslaio pela janela da sala
Chegou a procurar as chaves
Tentou destrancar o portão
(E esse cadeado que mantenho sempre seguro)
Não havendo possibilidade o amor esperou
Por cinco minutos - não bateu: segurava um cigarro e um livro do Neruda
Depois vi o amor descer a rua
Começava a esfriar
Não sei se virou a esquina
Ou se alojou em algum boteco
Mas foi-se embora das minhas vistas
E perdi a chance de o cumprimentar
Sozinho em casa
Sentei-me no sofá
Aguardei a correspondência
E adormeci com a triste memória
De sua feição.
quarta-feira
Poema de chegada
quando chegares
carregando o amor
nas mãos em conchas
e depositares em minha boca
um beijo em segredo
e quando trouxeres teus cabelos
lavados ainda de véspera
e teu corpo - incenso e mirra
(despojos de um sonho)
peço que não te assustes com meu jeito de poeta:
o cigarro entre os dentes
hálito fresco de noites de poesia
o flanco aberto esperando o punhal
quando vieres
encontrarás meu barco
à deriva repousando
a calma das velas
a brisa do tempo
areia dispersa ao sabor do vento
se vasculhares bem
verás que tenho mil poemas a tua espera
mil línguas cantando teu nome
e te recebo
com o peito descalço e afeto no bolso
segunda-feira
A metafísica das coisas imperceptíveis
A terra flamula sua iconoclastia e
O rebento do solo prenhe de existência.
Haverá sempre o sonho, um aquífero
Repousando na desordem da cabeça,
Esperando para emergir.
Houve sempre o farto gole de vida
(na infância
quando manejava verdes soldados de plástico
quando estrategicamente os colocava no barro
minha cabeça casamata onde se escondiam planos
secretos de partida e solidão)
Por entre os arbustos
(que insistimos em arrancar
pois são corpos estrangeiros estragando nossa paisagem
tão bem organizada)
Nasce a noite o triste pulsar de estrelas
e também às vezes o amor que
Haverá sempre de romper a pele
E gritar sozinho, anunciando a senha
Dos que esperam e pelejam.
Havia em mim o beijo do destino.
(a descoberta da paixão inevitável
como as nuvens que pastam no céu
as glórias e incertezas teus olhos e
aquilo que não dissemos)
Haverá sempre o sopro
Embalando a rede das mudanças
E a gesta das pequenas coisas cotidianas
Há o gosto, a cambraia, o almíscar das tardes
Que não percebes; sentes.
Antiquário
eu chegando em casa
- você pelos cantos
antiquada
drama-queen
desmoronando nossas bocas
até que vem o sexo
(a língua que entendemos)
e aí
outra vez
vem a paz
a gente se suja de presença
gasta a saliva
coteja os olhos
e no espaldar da circunstância
repousamos
pra quê?
responde não
deixa nessa nossa
parede mal-pintada
o gosto de ser arte.
sábado
Carta-poema
Na estante, poeira e livros.
Entre tantas incertezas, uns seus relatos que lia com tanto apreço.
Em mim nada mudou: compro pão logo cedo
trabalho dobrado e, à noite, vez em quando tomo um
whisky.
quarta-feira
Poema amanhado
disco do silva
filme de drama:
o amor acontece onde se deixa.
nas migalhas espalhadas pela mesa
e entre os pombos nos alpendres
na camisa cansada em fim de expediente
e no batom já desbotado pelas circunstâncias:
há amor quando se pode amar.
ligações não atendidas
notícias tristes de jornal
respostas entrecortadas
suco de abacaxi:
pode o amor resistir quando quer.
nos copos de cerveja
e no cigarro compartilhado
talvez no espaldar em que
as costas descansam
no beijo certamente
(e no riso de canto de boca?):
o amor se desdobra em condições:
senta ereto, pernas cruzadas,
uns olhinhos gentis
o amor espera
com seus cacarecos
lustrados de vontade
o amor chega
sexta-feira
Elegia
(-plaga distante,
minha canaã)
levo meu pensamento
e no emaranhado
dos teus cabelos
(-onde há o enleio dos dedos,
o passeio nas horas,
doçura no tempo?)
encontro o desejo
de longe
(- beijo anunciado aos ventos)
do lugar em que te imagino
sinto tua carne, a vibração
e tua face com gosto de lonjura
(-pudesse eu romper a terra!
atravessá-la, como fazem estradas
e, como um rio que se desloca sinuoso
farejar teus passos a ponto de vê-la,
mulher, esperando meu carinho!)
penso, enfim:
haverá o dia, claro como manhã de outono,
em que terei teu peito próximo
pulsando o quente sangue da paixão.
sábado
Poema amargurado
Como o acorde Em7
E ando por aí
Tropeçando em mim mesmo
Atravessando vias recapeadas
Até que chega a noite
E com ela suas tramas
Que me envolvem e me furtam
De um claro desejo novo
Das coisas que há em mim
Às vezes sou triste
E assovio Rômulo Fróes
Desvio de poças d'água
E também desses pensamentos
Que querem me atropelar
Como se atropela um plano
Um toque um verso esquecido
Me equilibro buscando
Os pés no chão
As mãos nos bolsos
Caminhando entre vielas
De mim mesmo
Eu sou meu país
Meu rei e carrasco
E legislo:
Faço as leis
e sinto apenas.
sexta-feira
Roma Minha
por onde passeio
tuas praças, colunas,
jônicos seios,
teu panteão
que abriga tua
deidade, desejo e potência,
e essa tua cabeça,
teu coliseu,
em que degladiam os sentimentos,
caminho, déspota e amante,
no louco império
do teu corpo
e encontro, madona,
teus arquedutos, tuas vias
e me perco:
Sou o que sou:
Um Nero a te incendiar.
domingo
Imagem
e nos seixos da saudade
encontra-se você
Na carne mordida
pelos dentes do tempo
e no abraço de beleza
que o teu modo exala
encontra-se teu corpo
No espaço em que não estamos
- nossa vontade, a matéria do nosso desejo
você surge
sorriso largo
olhar manso
com teus rococós,
é apenas ilusão
Fora de mim eu não te tenho
Da tua voz, o que conheço é o inaudível
que me chama
e respondo
e vou
Perto de você me perco.