domingo

Retrato da Casa Adormecida

brincam as crianças na varanda
a luz e o canto
riso farto na noite
os mais velhos se reúnem
à mesa há conversa a comida
celebrando o tempo
a possibilidade de ser gente
e estar vivo
bebe-se generosos goles
a cerveja nossa de cada dia
as latas garrafas amontoadas
e o fim de festa
recolhem-se para seus cômodos
os mais velhos
os animais fora de casa
os jovens pela sala
dormem todos num sono tranquilo
dorme a casa
acolhida no escuro
nas sombras do sereno
como tantas outras
em tantos lugares
pois é madrugada
pairam sonhos 
eclode lentamente o silêncio

- só eu não repouso em meu poema

Ausência

na tua ausência
criei o mundo
das sombras que eram tuas
fiz luz - à te procurar
rasguei estradas
e nas fissuras encobertas pelo solo
tu não habitavas
deixei crescer os matos
fundei raízes para que permanecesses
mas partias
levando contigo o espaço das horas
inventei chão
para checar tuas pegadas
elaborei água
para te banhares quando cansada
mas tu não deste as caras
e entediado inventei as gentes
procurava rostos que se parecessem com o seu
que me lembrassem teu sorriso desconhecido
um olhar não descoberto
em vão:
na tua falta
esqueci o mundo

quarta-feira

Depois

depois, o cigarro.

cinzas sobre nosso segredo,
você disposta sobre o lençol
[escuro
como uma presa que eu acabei
de devorar.

depois, o sono.

dormias nua sobre teu cansaço
vencida pela mecânica do sexo:
tantas maneiras e o vício e a fumaça.

depois, partida.

mas antes que te aprumasses
(era sempre o mesmo gesto:
te levantavas e, preguiçosa,
repetias as desculpas de sempre.
Já não te pedia para partir, apenas
para que voltasses com tua forma
e teu colo)
te segurava pelo braço
-a rotina sugeria o esquerdo-
e te puxava para a cama
ainda descoberta
e mais uma vez
num exaspero de solidão
nos consumíamos
o corpo o cheiro o suor o gosto o toque
o sussurro o desejo o momento o líquido

e depois

você saindo por aquela porta
esquecendo outra quinquilharia
só pra dizer que "talvez vem buscar"

depois.

quinta-feira

Aquarela

teu batom marcando meu afeto
e teus olhos
à deriva em nosso encanto
onde cabem as confissões
do misterioso gosto
das palavras
que viram sonhos
e você, na minha noite
embaçada: luzes & vontades
são as cores que pintamos
uma aquarela de planos
misturadas nossas pernas
nosso sexo, nossas bocas
formando cores novas
e depois, ou mesmo antes,
a cerveja (escura ou clara?)
a conversa
o riso
fatal como nossos corpos:
sinuosos de prazer.

segunda-feira

waiting for a sun to shine

enquanto espero
faço o que sei:
desesperar
fumo todos os cigarros
batuco um samba na mesa
(a mesma que sugere o
espaço em que também não estou)
escrevo versos que não rasgo
- deleto
e me encontro sujeito de mim
declino de teus olhos
os que não me veem 
teu paço incólume
a saliva mecânica que aglutina tuas palavras
sentado sobre a noite que chega arrependida
menos que eu, claro
aguardo a fumaça se dissipar
e com ela os sinais do que fomos
e não lembrávamos

Visita

O amor esteve prestes a entrar
Estava na calçada
Fumando plaza
E eu o via de soslaio pela janela da sala
Chegou a procurar as chaves
Tentou destrancar o portão
(E esse cadeado que mantenho sempre seguro)
Não havendo possibilidade o amor esperou
Por cinco minutos - não bateu: segurava um cigarro e um livro do Neruda
Depois vi o amor descer a rua
Começava a esfriar
Não sei se virou a esquina
Ou se alojou em algum boteco
Mas foi-se embora das minhas vistas
E perdi a chance de o cumprimentar

Sozinho em casa
Sentei-me no sofá
Aguardei a correspondência
E adormeci com a triste memória
De sua feição.

quarta-feira

Poema de chegada

quando chegares
carregando o amor
nas mãos em conchas
e depositares em minha boca
um beijo em segredo
e quando trouxeres teus cabelos
lavados ainda de véspera
e teu corpo - incenso e mirra
(despojos de um sonho)
peço que não te assustes com meu jeito de poeta:
o cigarro entre os dentes
hálito fresco de noites de poesia
o flanco aberto esperando o punhal

quando vieres
encontrarás meu barco
à deriva repousando
a calma das velas
a brisa do tempo
areia dispersa ao sabor do vento
se vasculhares bem
verás que tenho mil poemas a tua espera
mil línguas cantando teu nome
e te recebo
com o peito descalço e afeto no bolso

segunda-feira

A metafísica das coisas imperceptíveis

Haverá sempre mato nos jardins.
A terra flamula sua iconoclastia e
O rebento do solo prenhe de existência.

Haverá sempre o sonho, um aquífero
Repousando na desordem da cabeça,
Esperando para emergir.

Houve sempre o farto gole de vida

(na infância
quando manejava verdes soldados de plástico
quando estrategicamente os colocava no barro
minha cabeça casamata onde se escondiam planos
secretos de partida e solidão)

Por entre os arbustos
(que insistimos em arrancar
pois são corpos estrangeiros estragando nossa paisagem
tão bem organizada)
Nasce a noite o triste pulsar de estrelas
e também às vezes o amor que

Haverá sempre de romper a pele
E gritar sozinho, anunciando a senha
Dos que esperam e pelejam.

Havia em mim o beijo do destino.

(a descoberta da paixão inevitável
como as nuvens que pastam no céu
as glórias e incertezas teus olhos e
aquilo que não dissemos)

Haverá sempre o sopro
Embalando a rede das mudanças
E a gesta das pequenas coisas cotidianas

Há o gosto, a cambraia, o almíscar das tardes
Que não percebes; sentes.

Antiquário

como sempre
eu chegando em casa
- você pelos cantos
antiquada
drama-queen
desmoronando nossas bocas
até que vem o sexo
(a língua que entendemos)
e aí
outra vez
vem a paz
a gente se suja de presença
gasta a saliva
coteja os olhos
e no espaldar da circunstância
repousamos
pra quê?

responde não

deixa nessa nossa
parede mal-pintada
o gosto de ser arte.

sábado

Carta-poema

à memória de  Eduardo Galeano

Podia ver, da janela do apartamento, a cidade amanhecida:
eram as mesmas árvores outdoors prédios fachadas
antenas e cabos da energisa.

Na estante, poeira e livros.
Entre tantas incertezas, uns seus relatos que lia com tanto apreço.
Em mim nada mudou: compro pão logo cedo
trabalho dobrado e, à noite, vez em quando tomo um
whisky.


Quando você partiu, numa segunda-feira um pouco estranha
nessa cidade que você não conhecia
imaginei - tonto de mim!
que havia morrido também um pouco da esperança.

Você não viu, Galeano,
o mundo embarazado  parir a justiça.
(São tempos difíceis esses em que vivemos 
e não há vela acesa que não apague com os ventos 
da discórdia.)

Passarei, talvez, sem ter visto também:

Não há lógica no acaso de estarmos indo rumo ao 
não-sei-onde.

Só que seguimos, vamos indo, uns ficam pelo caminho,
outros vão até onde podem
e continuamos
vivos enquanto podemos
gritando até quando nos calam.



quarta-feira

Poema amanhado

uma tarde de sol
disco do silva
filme de drama:
o amor acontece onde se deixa.

nas migalhas espalhadas pela mesa
e entre os pombos nos alpendres
na camisa cansada em fim de expediente
e no batom já desbotado pelas circunstâncias:
há amor quando se pode amar.

ligações não atendidas
notícias tristes de jornal
respostas entrecortadas
suco de abacaxi:
pode o amor resistir quando quer.

nos copos de cerveja
e no cigarro compartilhado
talvez no espaldar em que
as costas descansam
no beijo certamente
(e no riso de canto de boca?):
o amor se desdobra em condições:

senta ereto, pernas cruzadas,
uns olhinhos gentis
o amor espera
com seus cacarecos
lustrados de vontade
o amor chega


sexta-feira

Elegia

para o teu corpo ausência
(-plaga distante,
minha canaã)
levo meu pensamento
e no emaranhado
dos teus cabelos
(-onde há o enleio dos dedos,
o passeio nas horas,
doçura no tempo?)
encontro o desejo

de longe
(- beijo anunciado aos ventos)
do lugar em que te imagino
sinto tua carne, a vibração
e tua face com gosto de lonjura

(-pudesse eu romper a terra!
atravessá-la, como fazem estradas
e, como um rio que se desloca sinuoso
farejar teus passos a ponto de vê-la,
mulher, esperando meu carinho!)

penso, enfim:
haverá o dia, claro como manhã de outono,
em que terei teu peito próximo
pulsando o quente sangue da paixão.

sábado

Poema amargurado

Às vezes sou triste
Como o acorde Em7
E ando por aí
Tropeçando em mim mesmo
Atravessando vias recapeadas
Até que chega a noite
E com ela suas tramas
Que me envolvem e me furtam
De um claro desejo novo
Das coisas que há em mim

Às vezes sou triste
E assovio Rômulo Fróes
Desvio de poças d'água
E também desses pensamentos
Que querem me atropelar
Como se atropela um plano
Um toque um verso esquecido
Me equilibro buscando
Os pés no chão
As mãos nos bolsos
Caminhando entre vielas
De mim mesmo

Eu sou meu país
Meu rei e carrasco
E legislo:

Faço as leis

e sinto apenas.





sexta-feira

Roma Minha

Você, minha Roma,
por onde passeio
tuas praças, colunas,
jônicos seios,
teu panteão
que abriga tua
deidade, desejo e potência,
e essa tua cabeça,
teu coliseu,
em que degladiam os sentimentos,
caminho, déspota e amante,
no louco império
do teu corpo
e encontro, madona,
teus arquedutos, tuas vias
e me perco:

Sou o que sou:

Um Nero a te incendiar.

domingo

Imagem

Nos bandós do meu peito
e nos seixos da saudade
encontra-se você

Na carne mordida
pelos dentes do tempo
e no abraço de beleza
que o teu modo exala
encontra-se teu corpo

No espaço em que não estamos
- nossa vontade, a matéria do nosso desejo
você surge
sorriso largo
olhar manso
com teus rococós,
é apenas ilusão

Fora de mim eu não te tenho

Da tua voz, o que conheço é o inaudível
que me chama
e respondo
e vou

Perto de você me perco.