domingo

saudade

A casa vista a partir da rua
alguns poucos metros de quintal 
uma varanda
grama pé de árvore ladrilhos de ardósia:

a saudade é muitos tijolos 
pregos que sustentam a estrutura de madeira
onde plantamos o amor 
um pouco de erva daninha 
e também um pouco de fertilizante

a casa vista de dentro
cômodos recém pintados
quarto sala cozinha banheiro
móveis quadros flores gatos:

a saudade passeia por entre objetos
é um cheiro de jasmim que ficou de insistente
a cor desbotada da toalha de mesa
uma fruta esquecida na geladeira

a cama, o sofá, cadeiras de vime, almofadas de jacquard
espaço para que descansemos
lugares em que nos encontramos
todas as palavras ecoando na tua ausência

a saudade é vinco no lençol amarrotado de véspera
uma lâmpada esquecida acesa 
um gesto visto de relance no espelho 
um recado que você deixou sobre a escrivaninha
e eu leio enquanto te espero  

quinta-feira

Eurídice

 I. 

Pela manhã, é teu cheiro que me desperta 

como a primeira claridade do dia

como um sonho que eu já pressentia.


II.

Ficamos os dois enredados

trama complexa sobre o linho do lençol

natural que nos misturássemos: 

cada pedaço de mim inda carrega

a matéria do que é feito nós


III.

Cuido teu sono como se pastoreasse 

um rebanho de afetos 

pela noite, o mistério do que somos

se desvela em tua respiração

no que não dizes, mas sei.


IV. 

É preciso que nossos olhos se encontrem

no apagar do último dia

assim como é preciso

que um beijo de despedida

seja o devorador de um mundo

seja o criador de outro


V. 

Houve a distância de centenas de quilômetros

algumas confissões tantas músicas uns poemas 

e enfim nosso nome circunscrito na voz do outro

mãos cravejadas de possibilidades

bocas murmurando amor


VI. 

Basta que eu feche meus olhos

para que tua voz reverbere por todos os meus pensamentos

basta que eu abra meus olhos

para que te sinta na presença das coisas todas que ainda não descobrimos




sábado

Nocturno n.9

É noite e enquanto espero seu regresso

Escrevo um poema pago contas alimento o gato rego plantas

Lembro de um verso de Borges 

No quintal conto algumas estrelas no céu

Escuto nossas playlists leio notícias rabisco à mão um bloco de anotações procuro no dicionário o significado de uma palavra que jamais usarei

Canto no tom aquele frevo axé

O relógio revela que é madrugada 

Assisto vídeos nas redes sociais encho as forminhas de gelo verifico o aplicativo do banco deito sozinho

Fecho os olhos e finjo que você existe aqui


Metafísica das horas

 I.

Porque então já era tarde

E nos encontramos na curva das horas

Que passam de acordo com seus próprios interesses

II.

Sonhamos o enlace das mãos que não houve

Como também não poderia ter havido 

Palavras secretamente amorosas

III.

Quando alguém vai embora

Sempre deixa vestígios 

Pra não ser de todo esquecido

Sempre deixa impressões

Que não podem ser reveladas

Sempre deixa

Sempre esquece

Sempre abandona

Um gesto um sonho um beijo

IV. 

Quando eu te vir da próxima vez 

Permita que eu feche meus olhos

Para contemplar no escuro das pálpebras

A lembrança do que não fomos

V.

Existe um tempo impossível de ser apreendido:

Nos primeiros instantes da manhã

Depois de uma noite em claro plena de lágrimas

Quando o primeiro pássaro gorjeia

Anunciando que há vida demais lá fora



terça-feira

Paula e Bebeto

eu tinha sete anos 

quando vi bebeto jogar 

no la coruña

antes na copa 

o tetra do brasil 

braços vazios fazendo gesto de balanço

um bebê imaginário


aí eu soube que queria ser pai

- não o meu

e a mãe seria Paula

que tinha cabelos loiros cacheados

& usava um tenis preto-olympikus


Paula e Bebeto

La Coruña 

- eu só tinha sete anos 

o mundo colocou na minha lancheira

a euforia com o futebol e o

desabono das mulheres


A respeito do sonho

em algum lugar nas horas tardias

antes de dormir

cansado da lida diária

ainda como um flash um frame uma foto

vejo teu rosto

o contorno do nariz boca 

teu cabelo escuro 

e adormeço sonhando mil infernos mil tretas 


pra depois acordar e não lembrar de nada:

só um flash um frame uma foto um vídeo um longa-metragem

teu rosto & mil infernos

quarta-feira

Cena II

Adormeço em meus pensamentos

Como uma cama bagunçada

Enredado sonho um tempo diferente

Em que a vida abrigue em suas asas

Um princípio de paz.


Penso muito e logo tenho que existir:

Há o trabalho as contas o acre da terra 

A ser manejada a casa a ser limpa com cada

Coisa em seu lugar

Mas é tempo de homens partidos.


A quem está sujeito

Será necessário recolher os despojos

Do que sobrar de Brasil:

Uma canção meio esquecida/

Um poema não terminado.


É preciso remendar a esperança

Como quem costura uma ideia 

um plano uma rota

Com linha de ferro

Como agulha num palheiro.





segunda-feira

Cena

No varal, as roupas esperam

Não imóveis, tocadas pela brisa noturna

Aguardam que eu as retire

Descansam enquanto escrevo um poema de amor.

Mas não ouso, pois rasgo

Os poemas, as roupas jamais

Também eu não estou imobilizado:

Agitam-se em mim os pensamentos

Que não dissipo, reverbero.

Haverá um tempo de completa mudança

Não hoje não logo não sei:

Meus versos são inquietos

Como as roupas e o que penso.

Preso à minha classe e algumas roupas

Me custa caro ser brasileiro

E eu custo a ser eu.

domingo

tsc

você que vá 
disse ela
pro inferno pra casa pra rua 
escrever um projeto de nação um poema um bilhete

que aqui não te quero mais
continuou ela 
do que um ano talvez uma noite
o tempo do sinal abrir o espaço entre os vãos dos dedos 
e "vão-se os dedos" etc.

chega
concluiu ela
mais perto para aí tá bom
não fica não 
some 
manda um zap pix pax
ciao


hai-caí

Escuta:
Eu leio poemas de amor
Como quem bebe cicuta

sábado

Lírica

Habitou em mim

Já há alguns anos

Um poeta com seus poemas.


Um poeta com seus poemas

Uns de amor outros de ódio

Que habitavam em seu corpoesia.


Já há alguns anos 

Que o poeta abandonou seu ofício:

Chafurdados num Brasil retrocedido

Não há palavra que demova

O que nos, dia-a-dia, atravessa.


Um dia, quando houver novamente vida,

Talvez o poeta com seus poemas

Retorne

E despeje no amanhã um punhado de lírica.



domingo

poeminha

Parece que a gente
Se dana 
Com o passar dos (d)anos


Mas não é isso:
A gente nada (ou tudo)
A gente anda (se equilibra)
E se vira como dá

Parece que a gente
Se (m)anda
And keep going




segunda-feira

Teu Nome

Eu, às vezes, esqueço teu nome

E é como se não te amasse: 

E aí quando surges

- tua pele rabiscada com sentimentos 

que inscrevo em ti - 

Parece sempre o amor que procurei. 


Eu, às vezes, como quem não quer nada,

Te quero toda: 

Decoro seu nome até que ele 

Sobreviva em mim 

Mesmo que eu esqueça do meu...


Professo teu nome e sei bem o gosto

Das palavras: minha oração diária.


Às vezes, completo teus gestos como

A um jogo de palavras cruzadas:

Pressuponho teu sorriso, adivinho as

Mãos apoiando a cabeça cansada

Antecipo teu olhar curioso...


Mas, principalmente, contemplo teu nome

Mais vogais que consoantes

se contrapondo ao meu,

Teu nome de mulher

Reverberando em minha boca

Sempre que chamo por ti: 


E vens. 

sábado

Mapa

Percorro as linhas de tuas mãos
O traçado do teu rosto 
E sei:
Te vejo no agora dos meus passos
No instante em que minhas palavras tomam forma
E, tontas, alcançam seus ouvidos

Desbravas com tuas saídas e bandeiras
Meus interiores, lá onde guardo
O que não tem nome, mas forma 

Haverá tempo para colher teus modos
No caminho que inventei para nós
A estrada é longa e a vida é curta...



E seguimos:
Tua pele, meu mapa
E eu leio teus sinais
E eu pergunto
Para onde vamos agora?
Ao que me respondes:

Para além...

quinta-feira

Fragmento I

Eu gosto é

De comida amanhecida 

Que guarda um sabor de sol.