sábado

Como amar-amor V


Eluir um poema

Até que se distingua

Palavra de ação.


Diluir um verso

Para que sobre dele

Apenas o que não

Pode ser dito.


Observar em lamínulas

As amostras microscópicas

De onde se origina todo o amor

As células: vida se constituindo

Os sentimentos se aglomerando.


Amar, como se neurotransmissores

Reações químicas

E todo o corpo

E toda a matéria

Fosse senão sonho

Fosse tão somente amor.

Como amar-amor IV

 

Há muito o que fazer em casa:

Louças e roupas a lavar;

Além de varrer; tinir, transpor.


Na firma, trabalho é o que sobra:

A escrita, a escuta,

Docs pdfs txts xls


Na academia, os exercícios; no mercado,

lista de compras; na sorveteria: chocolate ou baunilha?


Mas eu

Incólume

Penso no amor,

Escrevo um poema.

Como amar-amor III

 

Jurei de pé junto:

"Amor? Só na próxima encarnação!"

Bradei aos quatro ventos:

"Amor? Pois eu quero é paz!"

Escrevi um tratado:

"Amor? Conta outra!"


Tsc. Psicologia reversa.

Era em tempo: falar no amor três vezes ele aparece...


E não tem capacete que proteja

e não tem santo que livre:

Amor escapa escorre espoca escreve

Anota!

Como amar-amor II

 

amar como um cão

que, ignorando a ausência

da cauda partida,

a abana insistentemente.


amar como uma ave

que traça no céu não uma rota

mas o absurdo

do imprevisível ar.


amar como um peixe abissal

que, desconhecendo a luz,

a inventa em seu próprio corpo

ferramenta perene da fome.


amar como pedra rocha bruta mineral raro

(que sabemos nós?)

como sedimento das eras

matéria prima de universo

ligação química

- serotonina; poema.

Como amar-amor I

 

amo como quem

numa corrida de cavalos

dispara por último

por puro prazer de lentamente

percorrer a pista

sem intenção nenhuma de chegar.


amo como quem vive da espera

a hora de escrever um verso

soltar a voz

respirar

e depois da pausa: tudo de novo.


amo como se não soubesse amar

como quando era criança

e na escola me ensinaram as letras

que eu já tinha aprendido em casa.


amo como se o amor fosse natural

um dia, ainda menino,

cuidei de um pardal até que voltasse a voar

quando chegou a hora

amei como se fosse asa

amei como se fosse espaço.

Aviso de Amor


afixado na parede carcomida

de uma birosca em bairro decadente

se escrevia a seguinte frase:

amar com urgência, mas sem pressa


e eu, que corro afobado tentando chegar logo

que tropeço nas palavras (para quê tantas sílabas?)

que só leio haicais

me demorei lendo o que se dizia.


amar com urgência

como se houvera um dilúvio

e tivéssemos que escolher entre declarar o amor

ou nos afogarmos.

como se, em espaço sideral,

o astronauta suicida revelasse sua paixão

antes de tirar seu capacete.


mas sem pressa, que amor é pra ser arado

só ama quem crê no fruto da árvore inda não plantada

sem pressa, como amam as mães os filhos no ventre

como aguardo que repouses tua mão no meu sonho.

segunda-feira

Labor

A poesia não sabe o quanto te devemos.

(Rui Costa)


trabalhava e já ia parte da manhã

no expediente na repartição 

entre um café e uma demanda

um relatório e mais um gole 

quando li pela primeira vez

num perfil de rede social 

versos de rui costa


anos atrás

precisamente vinte 

jamais eu saberia de rui costa

poeta em Porto 

que deixou o mundo à deriva cedo demais


sei de rui costa por causa da internet e do

bar do acaso - a pausa no expediente a exasperação do serviço

técnico burocrata o modo de vida produtivista ao qual somos submetidos

arrochados até sermos exauridos - que me deixou em vias de escrever um poema

(que não era esse e nem hoje e que ficou guardado na memória enquanto produzo planos de ação preencho planilhas no excel alimento sistema)


daqui do meu lugar, no interior dum brasil que dá notícias de que nunca chegará a lugar algum

carrego os versos de rui costa num smartphone 

e rememoro a poesia que me livra da vida de todo dia



 


domingo

Passagem no tempo IX

(...)e bandos de nuvens que passam ligeiras
pra onde elas vão? 
ah, eu não sei, não sei

(Dindi - Tom Jobim)


as horas contidas no relógio 

- sistematizado dividido elaborado 

doze mais doze 

& depois sete 

& depois quatro ou cinco 

depois mais doze 

e sempre se repetindo nesse fluxo contínuo 

que surgiu bem antes de eu nascer 

e perdurará após minha morte 

trabalho cinco ou seis

descanso dois ou um

assim aprendemos 

tolerância de quinze

almoço de quarenta e cinco

assim prosseguimos

mas há aquele momento e sempre haverá

quando o vento das circustâncias toca de leve 

um sonho um não dito um sequer imaginado

e já não importará a que horas o dia nasce

ou como se põem as tardes

ou mesmo o que significa a noite

aquele momento

em que o vento das circunstâncias

- vendaval ou brisa que sei eu?

bagunça o tempo

altera o que sentimos

(na aflição, as horas não correm

no amor, desembestam)

e já nada mais importa

cedo ou tarde mais dia menos dia

só o tempo dirá



quarta-feira

Contíguo

- convém que tenhas um

coração de sisal:

atadas todas as tramas

fibra força forma firme faça

bom proveito


mas o meu coração de poeta

projeta-me em tal solidão 

que o material com que foi feito

não poderia ser outro 

além de evanescente sonho


coração bobo, coração bola

contíguo ao pulmões

esses sim feitos de rocha limo ar citadino-poluído

polidos pulmões que não gritam à revelia

e revelam o estado de profunda respiração

- calma.


se estiveres em busca de um coração 

compre-o em casas de construção

reforce-o cimente-o pá de cal isolante térmico

todo cuidado é pouco!


eu, por minha vez, 

fiz das tripas coração: 

e prossigo a procissão 

de ser eu de vez. 

terça-feira

Memória

cheiro da casa de minha vó

os retalhos piso de madeira doce de amendoim

bibelôs e fotos 

romãzeira grama galinhas e porcos


geografia da casa de meus pais

banheiro sem janela

quarto-dispensa de bagunça

corredores musgosos telhas de amianto

na infância um velho quartinho dos fundos

mistério e encantamento


a memória é uma ilha de edição disse o waly

tudo o que não invento é falso disse manoel 

e eu, por minha vez, não digo é nada:

rememoro 

                                como se ruminasse 

um lugar um cheiro um gosto um gesto 

coisas que me tomam de assalto quando passseio

pelas ruas do interior

por dentro de mim 

e nas canções que ouço de quase-sempre


às vezes me esqueço das demandas de trabalho

dos amores que tive e também de comer frutas e tomar água

mas lembro palavras esquecidas em dicionários

dulcissonante ilídimo tauricórneo


história das cicatrizes do meu corpo

noites de cerveja dias de amor e de guerra 

nunca tive sangue nas mãos 

guardei-o todo para o coração


e vou viver




 


sábado

Presente

desenlaçar o amor 

- um presente embrulhado em papel colorido

dobrar cuidadosamente a embalagem do amor

& mantê-la em local seco e arejado

desvendar o amor 

cada peça engrenagem encaixe detalhe

brincar com o amor

(que ora se fantasia de gente ora de sonho

mas que é sempre simbiose e ideação)

dar nome ao amor

e colocá-lo em prateleira

para admirá-lo sempre que quiser.






segunda-feira

Cuiabá, 8 de Abril

1.
um cambacica se banha
às 10h da manhã
num dos buracos da av. fernando corrêa

2. 
nos trilhos abandonados do VLT
uma trama dickeana 
é escrita em ferrugem e lama

3. 
por ocasião de ser
o centro geodésico da américa do sul
cuiabá tem coração grande
mas artérias entupidas

4.
decidiu-se na cidade
em convenção realizada 
num quintal cuiabano 
projetado no metaverso
que seria necessário derrubar todas as árvores
pois o título de cidade verde
já não nos cabia mais:
era preciso modernidade
concreto & aço
casas parecendo consultórios
porcelanatos e cimento queimado

assim, adentrando ao século xxi,
cuiabá passa a ser conhecida como
a cidade mais quente do brasil 
título que a elite comemora
sob ares-condicionados 
instalados na sala de estar. 

5.
mas ainda há amor em cuiabá
que brota em cachos de ipê
que rói pequi e toma canjinjim

ainda há amor em cuiabá
trafegando pela miguel sutil
espelhando em towers gardens malls  

mas ainda há amor em cuiabá
na pele suada, no bronze involuntário
no sol no sol no sol


*

rasgo mapas
traço rotas
invento lugares
pra te ver
até que, afinal
fiquemos cerzidos os dois

Procura

faço um caça-tesouro pela casa

procuro teus vestígios:

teu cheiro inda incensa o quarto 

no espelho parece que te vi de relance

busco uma ninharia esquecida

e nada!


faço um caça-palavras pra passar o tempo

procuro teus predicados: 

tua voz ecoando meu nome 

vocativos que inventamos para nós 

o verbo que pensamos e enfim dissemos

tudo!





sábado

As Cercanias do Amor

Construímos nossa casa nas cercanias do amor:

Ele era um bosque de mata aluvial 

Onde se achava de angico à sarã

Saguis e cobras-cipó

E lambarizinhos nas sombras d'água.


Nossa casa ficava ali, ao lado do amor.

Adentrá-lo, só se fosse por um trieiro 

Chão irregular, placa de orientação nenhuma

Era preciso coragem de se perder

Era preciso receio do que pudesse encontrar.


Tínhamos um jardim em nossa casa

Onde as plantas cresciam ordenadas:

Canteiros & vasos

Mas, logo logo ali do lado

No amor

O que crescia não sabíamos só de vista 

Era preciso percorrer caminhos

Era preciso cheirar, tocar, provar do fruto 

Ouvir o vento, assoviar aos pássaros. 


Levantamos nossa casa no limite do amor. 

Já se via brotos de ipê crescendo nela 

Certa vez encontramos um ninho de sanhaço 

Bem junto à cabeceira da cama

Outro dia uma paca pastava nossa ráfia:

Era preciso deixar que o amor tomasse a casa

Era preciso cultivar o inesperado, o que não previmos.


Já não sabíamos onde começava o amor.

As raízes de suas árvores já habitavam nossa sala

Pequenos répteis decoravam a parede do banheiro

E mesmo um pedacinho de rio brincava na varanda

Era preciso abrigar o que era natureza

Era preciso contemplar o que nascia em nós.