sábado

antipoema.

Estou farto do lirismo, Bandeira.
Aqui quem fala é o primo pobre, mais um sobrevivente
desse século, de segunda
década
em que se atropela de barbarismos
que não são vícios de linguagem
senão matéria viva e observável.

Até agora eu não achei a chave, Drummond.
Engolida pela Justiça,
que prende como quer
(na muralha, em pé, mais um cidadão José.)
deve ter entrado pelo cano
e agora, o que será da palavra?

Não vim ao mundo catar feijão, João
antes: eu nego o poema
quero a antipoesia
(eu era a carne, agora sou a própria navalha!)
o que nos consome
em tragédia e silêncio.



domingo

Desabafo

feito lagartixas nos deslizamos
pelas paredes da memória
construída aos trancos e rebocos
os corpos, nossos corpos,
esgarçados, tristes corpos, triste bahia etc
mas keep going e lá vamos nós
chove canivete! e lá vamos nós
bruma no horizonte: lá vamos:
clarão que se procura

e tá ali, ó, pelos poros
o sinal dos tempos
nosso grito adormecido
meus 32 dentes ecoando
a fúria que virá

(-Eu também não queria ser o poeta de um mundo caduco
mas vou fazer o quê?)

o que sobrar de nós: um pastiche pra comer com pão.


quinta-feira

Recente Canção do Exílio

Minha terra tem Ipê
Onde pousa a juriti
Lá tive medo de morrer
Por isso fugi pra aqui

Minha terra tem Ipês
Devastados pela soja
Minha terra, se bem vês
Quem domina é uma corja

Quem andar sozinho à noite
Logo é preso - vagabundo!
E quem quer que se afoite
Logo sente a dor do mundo.

Minha terra teve Ipê
Em que cantava, que sei eu?
Noutros tempos menos tortos
O pássaro que já morreu.

Do romântico Gonçalves Dias
Me sobrou essa canção
Com as mãos nos bolsos frias
Sinto medo e solidão.

domingo

Rosa dos tempos

L’amour c’est l’homme inachevé.
                                (Paul Éluard)

são belos os olhos que vêem
e olho:
o amor semeia nas gretas e engrenagens
um visco brilhante anunciando
o beijo do tempo.

são belas as mãos que laboram
e seguro:
o amor brota nas pedras e préstimos
um gesto amigo saudando
o abraço da terra.

são belas as bocas que falam
e digo:
o amor - botão disforme e firme
tem cor de gente e sabe
o toque que o gesta

são belas as ventas que aspiram
e sinto:
o amor floresce no outro e na hora
cheira à mudança e resiste
o gosto da espera.

sexta-feira

Cuiabá Hora Cero

o ganido das sirenes
a lona escura cobrindo a cidade
salpicada de luzes artificiais da energisa imitando estrelas
intangíveis como a paz
o ruído morno dos eletrodomésticos
que chiam rompendo o silêncio
imposto pelas circunstâncias
e os despojos que deixamos
e se arrastam pelos anos:
o amor que não houve,
os amigos que partiram,
o medo do futuro que nos espreita
ali da esquina
e nos convence que não há futuro

sobrevivo às intempéries
às dinastias da tristeza
que sempre me rondam
e firme não me entrego
embora a ferida coce e a cicatriz
de todas as batalhas
as perdidas e as ganhas
já desfigurem esse resto de corpo
essa massa no espaço
significado & significante
enunciado perdido nesse ambiente de 30m2

e um poema já não cabe em lugar algum além da boca do poeta

mas arrancaram-me a língua dos meus antepassados

sozinho, as mãos sujas,
reescrevo a história que é ser gente.

terça-feira

inútil paisagem

guardo, no alforje da memória,
um poema nunca escrito.
e como poderia escrevê-lo
se se abate a noite sobre o halo
das circunstâncias?

lavo as mãos, sujas de pó de estrelas:
para ser poeta não bastam mais as palavras
para ser gente é preciso sufocar o que nos tange
e seguir adiante
pé ante pé
como se o ruído dos versos
não fosse tão alto
como o mais profundo adeus.

quinta-feira

Um poema

rumino um poema
que se acomete aos meus dentes
que se entremeiam com a língua
que se move e cria o verbo
um poema:
palavra hasteada no peito do poeta
(uma porção de terra lhe convém às mãos,
um bocado de esperança lhe fareja os olhos)
algumas palavras encadeadas
subalternas à gramática dos acontecimentos
faquires sobre a realidade espúria.

um poema que degluto
e não sacia:
gesto em mim um sonho inacabado.



sábado

Cantiga

Entre entulhos e
Restos de palavras
Uma luz que brilha:
Meu poema só
Minha língua sonha
Mil revoluções

passagem no tempo VI

o vento macera nossos pensamentos
com suas mãozinhas ocas
etéreas como o sonho que
se dissipa em mim
e a tarde cicia
-entre os dentes sugere o que não se pede;
acalanta o que resiste -
e balança
no morno da tarde
na luz que ocupa:
desloca o breu.

há entre meus dedos
um poema em papel
dobrado
não ouso escrevê-lo:
meu tempo cingido de memórias
apagaria cada verso
com a sombra das circunstâncias.






terça-feira

Fera

a poesia é como um felino que se chega
e roça em minhas pernas
ronrona - um sonho brando
macia como a esperança a poesia
se envolve por onde tropeço
mas quando tento passar-lhe a mão
esse bicho vira fera
um leão rasgando meus punhos
doloridos punhos de poeta
e ruge versos oblíquos
secos e perdidos dentro do meu cotidiano

então surges, amor, com tua lança e flanco azul
mãos em riste, halo idílico
e já não nos movemos - fera e eu
e já esse animal sossega e vira palavra
pra te adornar
e adormecer.


sábado

Sonho

Uma luz tênue decora a parede
no escuro quarto há apenas
as linhas refletidas da janela
um móvel antigo em que guardo meus pertences
teu corpo e o meu.
Dormimos o sono dos vencidos
e existe em nós a possibilidade de renovação
uns sonhos compartilhados
além de tua respiração, franca como teus olhos
e os meus, guardando teu corpo.
Embora haja noite, temos o dia pela frente
- esse mesmo que surge pela janela riscada pelas grades:
 Um sol rompendo nossos trópicos.
Há em ti, naquilo que não dizes, a mesma beleza 
De um céu que não se anuncia
E ficamos os dois, afinal, nesse lastro
                                                               [de tempo, espaço e amor
Que se nos invade de mansinho, pé ante pé.

segunda-feira

Pequena Ode

Há a verde grama em que pasta a noite
Há os arbustos precedidos pelo orvalho
Há o frescor do tempo
A brisa suave dos teus modos
- Pastoreio teus cabelos
E se perdem meus olhos em tua paisagem
O enlevo das mãos, a delicadeza dos gestos:
Te adornam, singelas, minhas palavras incensadas
E em tua voz de musselina encontro a paz

quinta-feira

Azul

adormeço em teu sonho azul
como um mar que me traga
uma onda que quebra em minha areia
dispersa em diâmetros de minha poesia
superfície em que mergulho
a procura do que me sustenta e equilibra
feito um pássaro em voo tácito
atrás de um repouso cálido de horas
descanso em teu halo 
azul como a certeza de um gesto calmo:
mira-me e acerta
(e teus olhos iluminando minha escura noite
e teus olhos - os meus onde estão? -
morando em meus versos:
casa para te adornar)
desperto em teu cotidiano
azul como as tardes depostas pelo
horizonte das vontades

lá, onde não se anunciam as coisas que já sentimos.

sábado

Em meu poema

dou voz no meu poema
à pele que sussurra teu toque
aos ossos que sustentam meu corpo
em seu lugar de fala
aos pelos eriçados
que espreitam o desejo
em meu poema há teu verbo
e antes o que calas
há teu passo célere
os meus te acompanhando
e para onde vamos
pergunto em meu poema
mas não, não respondas
apenas habite em meus versos
na métrica que não tenho
no papel tantas vezes rabiscado
(em que surgem tuas consoantes
teu nome se formando como um rio
caudaloso & claro)
surja nas entrelinhas
- espaço interdito em que
te beijo
e te abasteças do que não te digo;
escrevo.

quinta-feira

Impressionista

em teu quente colo repouso
confundem-se em minha boca
palavras que não criei
para denominar-te, mulher:
és por si só a força de mil sonhos
e todos eles me segredam teu nome
marulham meus dedos
formando versos,
um poema que te espreita:

nele caberá teu corpo
ilha em que me perco e me construo
(teu corpo: matéria singela
derivando no espaço de minha memória)
e também aquilo que de ti exala
tua voz recendendo
sons que me acalantam
tua parcimônia e teu desejo

o amor, em sua fronteira movediça
nos sugere uma bandeira
que flamula
como o tempo de um encontro
e o toque da saudade.