domingo

Poema Noturno

Ao Moisés Carlos de Amorim

em noites de intenso calor
quando o mormaço impede o sono
leio uns poemas que me ajudam a sonhar
e penso na mulher
 - que eu ainda não amo
e penso no amanhã
- que eu ainda não vejo
e vislumbro surgir no espaço das horas
todos os verbos que não escrevi.

de minha janela gradeada
por onde passa o vento morno
e os incólumes desejos
olho as casas
- e seus telhados de amianto
olho os prédios
- e suas luzes fluorescentes
e imagino o dia em que serei velho
como as palavras que admiro e decoro.

nesse intervalo entre o eu e o tu
é que se esgueira a poesia
salpicada de sentido
e o poeta sente o dever
de registrar o instante
-  que ainda não existe
de perceber o afeto
- que já tenha acabado
e de viver participando das remissões
da vida.

quinta-feira

Algum poema

penso um poema incendiário
que transforme o tédio
em vendaval

imagino um poema denúncia
que vá atentar contra
o sistema estabelecido

reflito um poema manifesto
um grito em fúria
que não pode ser calado

sonho com um poema rebelde
um poema que derrube governos
mantra de liberdade e progresso


- escrevo um poema de amor.

sábado

antipoema.

Estou farto do lirismo, Bandeira.
Aqui quem fala é o primo pobre, mais um sobrevivente
desse século, de segunda
década
em que se atropela de barbarismos
que não são vícios de linguagem
senão matéria viva e observável.

Até agora eu não achei a chave, Drummond.
Engolida pela Justiça,
que prende como quer
(na muralha, em pé, mais um cidadão José.)
deve ter entrado pelo cano
e agora, o que será da palavra?

Não vim ao mundo catar feijão, João
antes: eu nego o poema
quero a antipoesia
(eu era a carne, agora sou a própria navalha!)
o que nos consome
em tragédia e silêncio.



domingo

Desabafo

feito lagartixas nos deslizamos
pelas paredes da memória
construída aos trancos e rebocos
os corpos, nossos corpos,
esgarçados, tristes corpos, triste bahia etc
mas keep going e lá vamos nós
chove canivete! e lá vamos nós
bruma no horizonte: lá vamos:
clarão que se procura

e tá ali, ó, pelos poros
o sinal dos tempos
nosso grito adormecido
meus 32 dentes ecoando
a fúria que virá

(-Eu também não queria ser o poeta de um mundo caduco
mas vou fazer o quê?)

o que sobrar de nós: um pastiche pra comer com pão.


quinta-feira

Recente Canção do Exílio

Minha terra tem Ipê
Onde pousa a juriti
Lá tive medo de morrer
Por isso fugi pra aqui

Minha terra tem Ipês
Devastados pela soja
Minha terra, se bem vês
Quem domina é uma corja

Quem andar sozinho à noite
Logo é preso - vagabundo!
E quem quer que se afoite
Logo sente a dor do mundo.

Minha terra teve Ipê
Em que cantava, que sei eu?
Noutros tempos menos tortos
O pássaro que já morreu.

Do romântico Gonçalves Dias
Me sobrou essa canção
Com as mãos nos bolsos frias
Sinto medo e solidão.

domingo

Rosa dos tempos

L’amour c’est l’homme inachevé.
                                (Paul Éluard)

são belos os olhos que vêem
e olho:
o amor semeia nas gretas e engrenagens
um visco brilhante anunciando
o beijo do tempo.

são belas as mãos que laboram
e seguro:
o amor brota nas pedras e préstimos
um gesto amigo saudando
o abraço da terra.

são belas as bocas que falam
e digo:
o amor - botão disforme e firme
tem cor de gente e sabe
o toque que o gesta

são belas as ventas que aspiram
e sinto:
o amor floresce no outro e na hora
cheira à mudança e resiste
o gosto da espera.

sexta-feira

Cuiabá Hora Cero

o ganido das sirenes
a lona escura cobrindo a cidade
salpicada de luzes artificiais da energisa imitando estrelas
intangíveis como a paz
o ruído morno dos eletrodomésticos
que chiam rompendo o silêncio
imposto pelas circunstâncias
e os despojos que deixamos
e se arrastam pelos anos:
o amor que não houve,
os amigos que partiram,
o medo do futuro que nos espreita
ali da esquina
e nos convence que não há futuro

sobrevivo às intempéries
às dinastias da tristeza
que sempre me rondam
e firme não me entrego
embora a ferida coce e a cicatriz
de todas as batalhas
as perdidas e as ganhas
já desfigurem esse resto de corpo
essa massa no espaço
significado & significante
enunciado perdido nesse ambiente de 30m2

e um poema já não cabe em lugar algum além da boca do poeta

mas arrancaram-me a língua dos meus antepassados

sozinho, as mãos sujas,
reescrevo a história que é ser gente.

terça-feira

inútil paisagem

guardo, no alforje da memória,
um poema nunca escrito.
e como poderia escrevê-lo
se se abate a noite sobre o halo
das circunstâncias?

lavo as mãos, sujas de pó de estrelas:
para ser poeta não bastam mais as palavras
para ser gente é preciso sufocar o que nos tange
e seguir adiante
pé ante pé
como se o ruído dos versos
não fosse tão alto
como o mais profundo adeus.

quinta-feira

Um poema

rumino um poema
que se acomete aos meus dentes
que se entremeiam com a língua
que se move e cria o verbo
um poema:
palavra hasteada no peito do poeta
(uma porção de terra lhe convém às mãos,
um bocado de esperança lhe fareja os olhos)
algumas palavras encadeadas
subalternas à gramática dos acontecimentos
faquires sobre a realidade espúria.

um poema que degluto
e não sacia:
gesto em mim um sonho inacabado.



sábado

Cantiga

Entre entulhos e
Restos de palavras
Uma luz que brilha:
Meu poema só
Minha língua sonha
Mil revoluções

passagem no tempo VI

o vento macera nossos pensamentos
com suas mãozinhas ocas
etéreas como o sonho que
se dissipa em mim
e a tarde cicia
-entre os dentes sugere o que não se pede;
acalanta o que resiste -
e balança
no morno da tarde
na luz que ocupa:
desloca o breu.

há entre meus dedos
um poema em papel
dobrado
não ouso escrevê-lo:
meu tempo cingido de memórias
apagaria cada verso
com a sombra das circunstâncias.






terça-feira

Fera

a poesia é como um felino que se chega
e roça em minhas pernas
ronrona - um sonho brando
macia como a esperança a poesia
se envolve por onde tropeço
mas quando tento passar-lhe a mão
esse bicho vira fera
um leão rasgando meus punhos
doloridos punhos de poeta
e ruge versos oblíquos
secos e perdidos dentro do meu cotidiano

então surges, amor, com tua lança e flanco azul
mãos em riste, halo idílico
e já não nos movemos - fera e eu
e já esse animal sossega e vira palavra
pra te adornar
e adormecer.


sábado

Sonho

Uma luz tênue decora a parede
no escuro quarto há apenas
as linhas refletidas da janela
um móvel antigo em que guardo meus pertences
teu corpo e o meu.
Dormimos o sono dos vencidos
e existe em nós a possibilidade de renovação
uns sonhos compartilhados
além de tua respiração, franca como teus olhos
e os meus, guardando teu corpo.
Embora haja noite, temos o dia pela frente
- esse mesmo que surge pela janela riscada pelas grades:
 Um sol rompendo nossos trópicos.
Há em ti, naquilo que não dizes, a mesma beleza 
De um céu que não se anuncia
E ficamos os dois, afinal, nesse lastro
                                                               [de tempo, espaço e amor
Que se nos invade de mansinho, pé ante pé.

segunda-feira

Pequena Ode

Há a verde grama em que pasta a noite
Há os arbustos precedidos pelo orvalho
Há o frescor do tempo
A brisa suave dos teus modos
- Pastoreio teus cabelos
E se perdem meus olhos em tua paisagem
O enlevo das mãos, a delicadeza dos gestos:
Te adornam, singelas, minhas palavras incensadas
E em tua voz de musselina encontro a paz

quinta-feira

Azul

adormeço em teu sonho azul
como um mar que me traga
uma onda que quebra em minha areia
dispersa em diâmetros de minha poesia
superfície em que mergulho
a procura do que me sustenta e equilibra
feito um pássaro em voo tácito
atrás de um repouso cálido de horas
descanso em teu halo 
azul como a certeza de um gesto calmo:
mira-me e acerta
(e teus olhos iluminando minha escura noite
e teus olhos - os meus onde estão? -
morando em meus versos:
casa para te adornar)
desperto em teu cotidiano
azul como as tardes depostas pelo
horizonte das vontades

lá, onde não se anunciam as coisas que já sentimos.