domingo

Enquanto dormes

Enquanto dormes

O tempo continua a seguir:

Sobre teus ombros cansados

As constelações distraídas se movem 

Sob teus pés, flores: quem sabe plantadas por ti...

Teus olhos fechados sonham talvez

Um gesto não expresso: 

E há o mundo, a pele, a dor e a revelia

Das coisas todas que não lhe cabem nas mãos:

Tudo desperta e é e sente...

Repousas: Natural que seja:

Guardada por tudo o que te abriga

(tudo o que tens e és e sentes!)

Enquanto gira o mundo e a ordem das coisas

E as supernovas explodem anunciando 

Qualquer possibilidade de vida

Descansa teu corpo, um sono tranquilo:

Dormem também tuas palavras e tudo o que não me dizes...

E eu te vejo e te velo e te sei:

Dormes como um botão de petúnia

E eu te desperto em pétala

Em cores, em luz. 

haikai noturno

Nomeio as estrelas

No escuro dos olhos do meu amor: 

e é o signo a nossa potência. 

Novíssimo Hino Nacional

Aguarda para ser identificado

Na sala de autópsia

Coberto por um pano de cor indefinida

O Brasil

Caberá a artistas fazer o reconhecimento

Desse corpo: 

Suas matas e rios

Seus bichos e céus

Mas também sua gente

Que lhe habita os intestinos e pulmões.


Depois de analisado

"É mesmo o Brasil quem morreu"

Deveremos enterrá-lo

Sem coroa de flores, homenagem ou cafezinho

Em vala comum, vala de brasileiro

Jogando sobre ele as terras todas

Quanto forem necessárias

Improdutivas e não-demarcadas

E deixá-lo ali descansando 

Sem jazigo que o represente.


Creremos, nós artistas, que dali

Brotará quem sabe num futuro longíquo

Uma árvore que frutifique

Raízes alimentadas da ideia de Brasil

E dê de comer aos pássaros 

Os novos habitantes desse lugar.


Depois de o Brasil morto e enterrado

Seguiremos com a lembrança do que

Poderia ter sido

E que nunca será: 

Rememoriaremos o Brasil boa-praça

Jeito menino sempre sonhando alto

E pronto a ajudar quem lhe necessitasse.


Quem sabe no futuro 

Não teremos um novo Brasil? 

Um filho bastardo

Vivendo escondido nos rincões por aí

Disposto a ser ele mesmo:


Um outro Brasil.

sábado

Nocturno n. 8

Em horas como essas

Quando a noite desvela seus mistérios

E o canto dos pássaros é agouro puro

É que cicio meus poemas 

(Os versos que escrevi colhendo palavras frescas

As rimas que inventei catando cacos de sílabas)

E com as contas que carrego junto ao punho

recito outros poetas, os sórdidos e os 

consagrados

Todas as palavras que aprendi 

lendo mulheres e homens, poetas: como eu;

Vivos ou mortos: como eu;

Gente, sobretudo: como eu ou você.


São em horas como essas

Quando a luz precária dos postes 

adornados de panfletos 

Não ilumina o acaso o que há-de-vir

o que-será? 

Que eu mastigo um verso esperançoso

Do qual me lembro apenas das palavras

- é tarde demais para as metáforas!

Que eu: punhos cerrados dentro do 

bolso da calça

Enfrento o tempo o medo a cidade

- Um poema como patuá -

Carrego meu sonho de menino

A fé no futuro, no peito um coração

E você, como eu.

terça-feira

Elegia

 Algum dia

Quando cansar da lida diária

Sentarei sob aquele cajueiro

Onde inscrevi teu nome 

e o meu à faca

E também onde esqueço teu cheiro

Enquanto macero as folhas grandes e verdes

Aroma agridoce como tua partida  

à faca, cindindo todas as palavras não ditas


Embaixo daquele cajueiro

Onde um dia ouvi teus olhos 

Murmurando em lágrimas uma canção 

Que eu jamais decifraria: 

Teu coração tamborilava,

e o meu, à faca,

Era descosturado. 

sexta-feira

Onírico

Sempre quando me deito
Ao relento 
No espaço até onde posso ver
Nunca fecho os olhos
Com medo de que as estrelas caiam sobre mim.

Já em casa, em minha cama de gente comum,
Adormeço profundamente
Sonhando com as mesmas estrelas
Intangíveis como um sonho de infância
Porque sei que estou guardado
Por aquilo que não vejo.

Tal qual estrelas desmoronando sobre meu                                                                          [corpo solitário
São as palavras nas quais não devo confiar
Posto que surgem vez ou outra
E me impelem a escrever e a ler poetas tristes
Num desassossego semântico-lexical
E eu me torno um poeta de intervalos:
Entre um verso e outro, tudo aquilo 
Que não sei dizer.



 


segunda-feira

Quadro

Em meio à grave crise sanitária

Um poeta do interior do Brasil

Ousa abrir a janela de seu quarto

- depois de acordar de sonhos intranquilos-,

Olhar para o horizonte, 

E suspirar, se perguntando:

- depois de tudo isso ainda haverá poesia? 


Mas em meio a tantos mortos, uma política

                                                      [genocida e um gosto amargo 

de desesperança na boca,

Colher na manhã as primeiras palavras

Será um gesto talvez sem sentido:


E o poeta sente.






sexta-feira

Parto

Silêncio!

Uma mulher pariu: 

De teu negro ventre - estuário do mundo - 

Surge a criança que inventa o tempo. 


Uma mulher deu a luz 

À ideia de vida

E teu corpo placentário

Comunica à terra 

Pensamentos de renovação. 


Silenciai mares & encostas

Bichos e tudo o que vive:

Uma mulher pariu 

As cores que compõem o amor

E sua face escura

Revela o brilho 

Do sol que ainda não nasceu. 


Uma mulher pariu

No silêncio da arte 

Na transformação da cultura

No horror das guerras

Sobre o chão coberto de sangue.


Uma mulher prenhe de um coração

Que bate assim à força

Motor do corpo

Que sonha chora deseja grita

Semente que brota da terra-devastada:

Uma mulher, em silêncio, 

Pariu.


segunda-feira

Tabebuia

Teus pés cansados por andarem todas as 

Distâncias do teu mundo particular

Se estendem pela terra que agora te acolhe

Teu corpo, esguio, um espectro:

Tons & formas e no íntimo 

O pulsar o querer o resistir

E de tua copa  - adornada pelas condições

Sempre adversas

De um mundo confuso - 

Brotam amarelas flores

Viço do tempo

Que te trouxe com as cores

De um novo dia


Tabebuia tua pele teu riso

Tabebuia teu amor teus sonhos

Tabebuia, tu, mulher.


domingo

Nau

Uma caravela baloiça sobre as 

mangueiras 

                  dos quintais cuiabanos:

é meu pensamento que atravessa

longos destinos

no meu leme o meu lema:

- navegar é preciso, o viver não é preciso.  

quinta-feira

Meu Nome

Meu nome, eu não o sabia de princípio:
Foram as vozes familiares que me        [acostumaram a ele.
Nome que me coloca no mundo como alguém
Diferente das pedras e demais objetos do dia a dia: nome pelo qual me chamam, nome que inscrevo em documentos, nome que tantas vezes rabisquei entediado.
Mas que é, afinal, um nome? 

Essa identificação, uma pele que me deram, um biombo em que me caibo, um conjunto de fonemas designados: meu nome, mais consoantes que vogais, mais forma que conteúdo. 

Quando me olho no espelho, o que vejo é um agregado de matéria: carne, músculo, ossos, pelos. Acaso todas essas coisas caberão no meu nome? 

Sinto em mim o intervalo: de letra para letra, som para som. Busco uma rota alternativa no caminho no qual as palavras percorrem...

Procuro um nome de batismo, um nome que me vista, um nome que seja eu

Para quando, então, você o falar 
Que seja eu inteiro reverberando em ti.
Para quando o amor me surgir
Que consiga saber quem eu sou.

sábado

Nocturno n. 7

Plantas: flores ornamentais, grama, mato, árvores.

Animais: domésticos, aves, anfíbios & répteis, insetos.

Coisas: iluminação das ruas e casas de alvenaria e ligas de metal e caixas d'água e telhas de barro.

Gentes: das mais variadas cores, biotipos, personalidades, costumes.

Espaço: lua, planetas, estrelas, nuvens, sol.

Sons: buzinas, crianças brincando, latidos, cocoricós, motos, conversas, músicas, anúncios, sirenes.

Eu: 

e tudo respira.

segunda-feira

Ad Libitum

Nunca espero a visita
da face de meu pai
mas ela surge e
atravessa minha memória
com aqueles olhos de pai
e a voz de senhor-pai.

Deliberadamente, às vezes, 
esqueço dos cabelos brancos de meu pai
as rugas de pai
mãos firmes de grossas veias de pai
camisa-e-calça como fora 
acostumado. 

Com alguma frequência
me pego pensando 
nas palavras de meu pai
e em tudo o que ele não disse como pai
e as coisas de pai que ele fez: 
a educação às crianças.

Sempre pai, 
com as histórias de pai
e o jeito, que ficou em mim
- o de sempre pedir bença-pai -
e carrego nas costas 
não como fardo 
mas como capa.

De meu pai, o que não recordo, construo
e o vejo como filho:
deslumbro e vivo a poesia me dada. 

                                                        *

Dou um último adeus - silencioso - ao meu pai,
Barão das Quinquilharias. 
Eu o procuro nas pequenas coisas deixadas:
parafusos, grampos, fios,  folhas de papel intactas sobre
                                                                [sua escrivaninha...
Por que não levou, meu pai, todas as coisas com o senhor?
Foi desleixo ou foi cuidado teu ato de ir embora, de supetão,
deixando tuas ninharias ao alcance dos nossos olhos?

Não encontro meu pai no sofá de sempre:
há um espaço vazio entre as coisas e as palavras.
Quisera eu ser menino de novo, meu pai, 
e estar deitado em sua cama, olhos entreabertos
                                                              [fingindo dormir, 
te ouvindo me ninar com aquela música
que nunca mais esqueci:
mãezinha do céu, eu não sei rezar...

                                                    *

E como são as coisas: 
em cada roupa minha há uma costura de meu pai.
No futebol que não joguei, nas escolhas que não fiz
Toda a lacuna que houve - meu pai ajudou-me a completá-la.
E agora, nessa procissão, caminho sozinho: pai de mim mesmo. 
E que palavra pequena - pai - para caber toda a história de homem.
Sangue do seu sangue, meus olhos embotados 
Parecidos com os seus:
um negócio assim, meu pai, que era teu e eu emprestei
                                                                [sem data de devolução.
Me cobre um dia. 
Agora, eu cubro tua partida. 

Don Juan às avessas

soy un poeta
sin corazón:

nadie me llama
de Drummond

quarta-feira

Mil e tantas noites

silêncio na city:
na rua, só a rouquidão das motos
- entregadores de apps que nunca dormem -
e o latido dos cães
(certamente conversam entre si,
já que todos os seres têm algo a dizer)
laceram a noite.

mas aqui dentro uma orquestra
de quase imperceptíveis sonidos
me coloca no meu lugar no mundo
- sou o que sou e estou bem aqui
entre pensamentos e palavras
entre emoções e desejos

no interior do brasil
numa capital provinciana
meu coração naturalmente preocupado
ouve as notícias internacionais
e se consterna.

em quarentena
forçada pelas condições socioambientais
o quase poeta que habita em mim 
olha pela sacada 
as gentes mascaradas
os cuidados com a saúde
- a morte, que embala e nina
as gentes com nome e história...

é tarde, madrugada.
neste tempo
neste país
algum espectro terrível e monocórdico
nos dá sempre o mesmo tom
e as horas parecem sempre ser as mesmas
esgarçando, fio a fio, o destino da alegria.