sexta-feira
Onírico
segunda-feira
Quadro
Em meio à grave crise sanitária
Um poeta do interior do Brasil
Ousa abrir a janela de seu quarto
- depois de acordar de sonhos intranquilos-,
Olhar para o horizonte,
E suspirar, se perguntando:
- depois de tudo isso ainda haverá poesia?
Mas em meio a tantos mortos, uma política
[genocida e um gosto amargo
de desesperança na boca,
Colher na manhã as primeiras palavras
Será um gesto talvez sem sentido:
E o poeta sente.
sexta-feira
Parto
Silêncio!
Uma mulher pariu:
De teu negro ventre - estuário do mundo -
Surge a criança que inventa o tempo.
Uma mulher deu a luz
À ideia de vida
E teu corpo placentário
Comunica à terra
Pensamentos de renovação.
Silenciai mares & encostas
Bichos e tudo o que vive:
Uma mulher pariu
As cores que compõem o amor
E sua face escura
Revela o brilho
Do sol que ainda não nasceu.
Uma mulher pariu
No silêncio da arte
Na transformação da cultura
No horror das guerras
Sobre o chão coberto de sangue.
Uma mulher prenhe de um coração
Que bate assim à força
Motor do corpo
Que sonha chora deseja grita
Semente que brota da terra-devastada:
Uma mulher, em silêncio,
Pariu.
segunda-feira
Tabebuia
Teus pés cansados por andarem todas as
Distâncias do teu mundo particular
Se estendem pela terra que agora te acolhe
Teu corpo, esguio, um espectro:
Tons & formas e no íntimo
O pulsar o querer o resistir
E de tua copa - adornada pelas condições
Sempre adversas
De um mundo confuso -
Brotam amarelas flores
Viço do tempo
Que te trouxe com as cores
De um novo dia
Tabebuia tua pele teu riso
Tabebuia teu amor teus sonhos
Tabebuia, tu, mulher.
domingo
Nau
Uma caravela baloiça sobre as
mangueiras
dos quintais cuiabanos:
é meu pensamento que atravessa
longos destinos
no meu leme o meu lema:
- navegar é preciso, o viver não é preciso.
quinta-feira
Meu Nome
sábado
Nocturno n. 7
segunda-feira
Ad Libitum
quarta-feira
Mil e tantas noites
- a morte, que embala e nina
as gentes com nome e história...
neste tempo
neste país
algum espectro terrível e monocórdico
nos dá sempre o mesmo tom
e as horas parecem sempre ser as mesmas
esgarçando, fio a fio, o destino da alegria.
segunda-feira
Para escrever um poema
para ser escrito
demanda muita energia:
o poeta morre um pouquinho
a cada verso escrito
no hiato do que não diz
nas interpretações que lhe fazem
para escrever
o poeta precisa estar no não-lugar
que é onde os solitários pássaros cantam
anunciando o fim do mundo
e flores brotam no spleen esquecido.
é preciso que o poeta esteja
a par do que acontece no tempo presente etc.
e mitigue os corações preocupados
de homens e mulheres que não leem poesia.
no tempo presente o poeta vai sozinho
e sabe, como um sentimento que lhe fosse íntimo,
a hora em que tudo será ressignificado:
é ele quem conduz a palavra ao seu estado
ordinário
e assiste ao futuro ainda não anunciado.
Tardio
foi do amigo e conterrâneo
Carlos de Amorim:
ainda existia esse país
e respirávamos um ar precário
mas singelo.
desde então passo dias e noites
revirando palavras soltas
olhando pra parede estriada
ignorando a louça suja sobre a pia.
forjo agora um novo sentimento
na bigorna do amanhã:
ele corta e coagula
e o meu peito gane
na incerteza do que ainda não é.
e de repente
esses versos que escrevo
encontrarão morada nos livros
bagunçados da estante empoeirada
ou desaparecerão
em meio ao calor enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece derreter¹
¹trecho de "calor", de Adriana Calcanhotto (2002)
sábado
Infância
quando criança
não tive amigos:
brincava com o outro eu
de emoldurar olhares
um sabiá sempre me assistia da goiabeira
cantava três vezes e eu negava
aquele mundo todo
um dia, pedi ao próprio deus
que me tornasse poeta
o sabiá, naquele dia, não cantou, não:
fez foi bicar uma goiaba
coçar a asa esquerda
e voar pro nunca mais
entendi, de repente, que
ser poeta é coisa que não se pede.
domingo
o dever do poeta
caberá ao poeta deste século
contar a história
do que restar de humanidade:
nas mãos do poeta
a palavra que se escreve
polifônica e inexplicável
captando o mundo que se arruina.
(pululam nos jornais letras mortas
nos noticiários nas leis no rosto
de quem morre a cada dia para se manter vivo há o gosto acre de silêncio e pesar)
é papel do poeta ler a vida
e explicar às futuras gerações
o que nos sucedeu:
como João, também cantaremos
o apocalipse
- não em sonhos e visões,
no cotidiano que se descortina
diariamente.
(fome, guerra, peste e morte em seus cavalos blindados atropelam as gentes todas que insistem em sobreviver)
o que sobra ao poeta
é inventar sua poesia
mas deve se apressar:
amanhã, talvez, as palavras já tenham
abandonado o dicionário
e sobrará só a barbárie
que não pensa em nos deixar.
segunda-feira
Chuva
como se nunca chovera antes
e a palavra chuva
só existisse no romance
de gabriel garcía márquez
chove e sinto de novo
o cheiro de pátria, terra em que vivo
e trabalho e suo e ajo
chove uma água suja, de certo que sim:
ácida como a vida entre os trópicos
devastando a sede desses animais
tudo o que passou, chove
tudo o que virá, chove
e chove no beco do candeeiro
no goiabeiras
sobre os automóveis
entre os viadutos
chove em cuiabá:
como se não parecesse chuva
e fosse só um alento
gesto do mundo que ainda respira