sexta-feira

Cinema

sou o personagem mais triste
de todos os filmes tristes
que falam de amor.

mas quando você chega
com seu cheiro de cassis
saio do meu papel
esqueço o roteiro
e já não sei
como te dizer:

um mise-en-scène sentimental. 

quinta-feira

visto a melhor roupa:
aquela que me cabe
para a ocasião
de nunca encontrar-te.

no guarda-roupa bagunçado
guardo camisas limpas
com cheiro de amaciante
e da tua ausência.

meu paletó não enlaça teu vestido:
trama que se perdeu.

terça-feira

Descoberta

descubro tuas palavras escritas à mão
como descubro teus olhos me fitando
tua voz rouca que vira e mexe me diz
como se simples fosse o ato de falar
sobre tuas ninharias tua vida os dias

descubro teu véu tua forma o cotidiano
revelo teu sorriso a foto que vi e guardei
e em mim escondido um sentimento bom
nele me apoio minha vida uns escombros
neles o que brota uma flor indefinida

descubro o que há de ti em mim
e vôo buscando tuas asas
tua célere despedida
o gosto do que sonhei pra nós
Entre teu nome e o meu:
a saudade fazendo sala.

sábado

            *

lá fora
fogos de artifício
- comemoração
silêncio cá:
não me arrebento não.
           
            *

um vaga-lume solitário
percorre sua via crucis
sem saber que sua luz
desafia a cidade
           
            *

se for vir, nem venha
que eu te boto no teu lugar!
(aqui, bem dentro de mim)
se vier, venha logo
logos: perdi o raciocínio.

            *

se de mim sobrar algo
junte os pedaços
adicione algum tempero
e me embale pra viagem.

            *

falando nisso
não vou nem falar
em boca fechada
só cabe seu nome.


Cuiabá, 300

buracos nas vias
os bares e suas luzes
o sol secando roupas
molhando de suor os rostos
trabalhadores indo e vindo
maracanãs e sabiás
mangueiras e oitis.

a conta da energisa
o centro e a periferia
o futebol e os grafites
artistas intelectuais
vendedores ambulantes
pedintes estudantes
professores polícias.

os ricos em mansões envidraçadas
os pobres em bairros esparramados
rios e córregos torando a cidade:
meu poema.

(passarei: como passaram dom aquino, dicke, manoel de barros, sodré.
meu verso fica: não tem pra onde ir.
daqui a cem anos, outros poetas cantarão a cidade:
se ela resistir.)

sexta-feira

Amor

mais uma vez sentou-se o Amor ali
nas cadeiras de plástico
nas calçadas rachadas
no banco de madeira
corroído de cupins.
também o Amor pediu um pingado
e discutiu a situação política
do país
e falou do futebol de quinta
e tamborilou um samba.
logo o Amor! conhecido por todos
popular entre os jovens
- os mais velhos ressabiados...
simples para os amantes:
o Amor de sempre
e agora?!
trouxe um presente
não estava embrulhado
antecipei sua forma:

e desde então o guardo
no bolso esquerdo da camisa
onde também está a esperança
e a minha poesia.

sábado

Tramontana

encilho a vida
e galopo contra o tempo
procuro um verso
que nos abrigue
e nos anime

não houvesse destino
a que destino nos entregaríamos?
e no meio das coisas tolas
-o cotidiano dos meus olhos à tua procura
tua boca que não encontrou a minha
nossas mãos que não se embaraçaram
o gosto do até logo

e se fôssemos feitos daquela matéria
que vibra tal qual tramontana?

nossos corpos, buscando o norte,
seriam névoa e ternura.

domingo

Poema Noturno

Ao Moisés Carlos de Amorim

em noites de intenso calor
quando o mormaço impede o sono
leio uns poemas que me ajudam a sonhar
e penso na mulher
 - que eu ainda não amo
e penso no amanhã
- que eu ainda não vejo
e vislumbro surgir no espaço das horas
todos os verbos que não escrevi.

de minha janela gradeada
por onde passa o vento morno
e os incólumes desejos
olho as casas
- e seus telhados de amianto
olho os prédios
- e suas luzes fluorescentes
e imagino o dia em que serei velho
como as palavras que admiro e decoro.

nesse intervalo entre o eu e o tu
é que se esgueira a poesia
salpicada de sentido
e o poeta sente o dever
de registrar o instante
-  que ainda não existe
de perceber o afeto
- que já tenha acabado
e de viver participando das remissões
da vida.

quinta-feira

Algum poema

penso um poema incendiário
que transforme o tédio
em vendaval

imagino um poema denúncia
que vá atentar contra
o sistema estabelecido

reflito um poema manifesto
um grito em fúria
que não pode ser calado

sonho com um poema rebelde
um poema que derrube governos
mantra de liberdade e progresso


- escrevo um poema de amor.

sábado

antipoema.

Estou farto do lirismo, Bandeira.
Aqui quem fala é o primo pobre, mais um sobrevivente
desse século, de segunda
década
em que se atropela de barbarismos
que não são vícios de linguagem
senão matéria viva e observável.

Até agora eu não achei a chave, Drummond.
Engolida pela Justiça,
que prende como quer
(na muralha, em pé, mais um cidadão José.)
deve ter entrado pelo cano
e agora, o que será da palavra?

Não vim ao mundo catar feijão, João
antes: eu nego o poema
quero a antipoesia
(eu era a carne, agora sou a própria navalha!)
o que nos consome
em tragédia e silêncio.



domingo

Desabafo

feito lagartixas nos deslizamos
pelas paredes da memória
construída aos trancos e rebocos
os corpos, nossos corpos,
esgarçados, tristes corpos, triste bahia etc
mas keep going e lá vamos nós
chove canivete! e lá vamos nós
bruma no horizonte: lá vamos:
clarão que se procura

e tá ali, ó, pelos poros
o sinal dos tempos
nosso grito adormecido
meus 32 dentes ecoando
a fúria que virá

(-Eu também não queria ser o poeta de um mundo caduco
mas vou fazer o quê?)

o que sobrar de nós: um pastiche pra comer com pão.


quinta-feira

Recente Canção do Exílio

Minha terra tem Ipê
Onde pousa a juriti
Lá tive medo de morrer
Por isso fugi pra aqui

Minha terra tem Ipês
Devastados pela soja
Minha terra, se bem vês
Quem domina é uma corja

Quem andar sozinho à noite
Logo é preso - vagabundo!
E quem quer que se afoite
Logo sente a dor do mundo.

Minha terra teve Ipê
Em que cantava, que sei eu?
Noutros tempos menos tortos
O pássaro que já morreu.

Do romântico Gonçalves Dias
Me sobrou essa canção
Com as mãos nos bolsos frias
Sinto medo e solidão.

domingo

Rosa dos tempos

L’amour c’est l’homme inachevé.
                                (Paul Éluard)

são belos os olhos que vêem
e olho:
o amor semeia nas gretas e engrenagens
um visco brilhante anunciando
o beijo do tempo.

são belas as mãos que laboram
e seguro:
o amor brota nas pedras e préstimos
um gesto amigo saudando
o abraço da terra.

são belas as bocas que falam
e digo:
o amor - botão disforme e firme
tem cor de gente e sabe
o toque que o gesta

são belas as ventas que aspiram
e sinto:
o amor floresce no outro e na hora
cheira à mudança e resiste
o gosto da espera.

sexta-feira

Cuiabá Hora Cero

o ganido das sirenes
a lona escura cobrindo a cidade
salpicada de luzes artificiais da energisa imitando estrelas
intangíveis como a paz
o ruído morno dos eletrodomésticos
que chiam rompendo o silêncio
imposto pelas circunstâncias
e os despojos que deixamos
e se arrastam pelos anos:
o amor que não houve,
os amigos que partiram,
o medo do futuro que nos espreita
ali da esquina
e nos convence que não há futuro

sobrevivo às intempéries
às dinastias da tristeza
que sempre me rondam
e firme não me entrego
embora a ferida coce e a cicatriz
de todas as batalhas
as perdidas e as ganhas
já desfigurem esse resto de corpo
essa massa no espaço
significado & significante
enunciado perdido nesse ambiente de 30m2

e um poema já não cabe em lugar algum além da boca do poeta

mas arrancaram-me a língua dos meus antepassados

sozinho, as mãos sujas,
reescrevo a história que é ser gente.

terça-feira

inútil paisagem

guardo, no alforje da memória,
um poema nunca escrito.
e como poderia escrevê-lo
se se abate a noite sobre o halo
das circunstâncias?

lavo as mãos, sujas de pó de estrelas:
para ser poeta não bastam mais as palavras
para ser gente é preciso sufocar o que nos tange
e seguir adiante
pé ante pé
como se o ruído dos versos
não fosse tão alto
como o mais profundo adeus.