quinta-feira

As mãos

As linhas das minhas mãos
segredam um poema de amor.
Nas pontas dos dedos
as impressões digitais
que me diferenciam de outros
da minha espécie
me fazendo único;
gente.
Nas cicatrizes, nas pintas
nos calos
nas unhas: leuconíquia.
Sob a pele, que ora enruga,
ora resseca:
há o labor de um poema.
Nessas mesmas mãos
dadas ao trabalho e ao amor
que seguram objetos
que escrevem mensagens
que aplaudem e se comunicam
- mãos de poeta.
São nelas que mora o poema
aquele que eu escrevo
e que chega aos olhos
sabe-se lá de quem
e que o sentirá
- préstimo ou provocação -
com outros sentidos:

minhas mãos escrevem
um poema de amor;
eu amo.

segunda-feira

Passagem no tempo VII

minha poesia,
arena de disputas:
ruge o amor
avança o poema
meu coração espraiado
desfeito em areia dos tempos
e a plateia, a delirar:
que vença o que sobrar de mim.

nesse coliseu, já não há imperador.

domingo

De novo, o amor

                           Pronto, o amor se estrepou.
                                                     (Drummond)

As vestes rasgadas, o lábio gretado
Levanta-se o amor mais uma vez
Verte sangue o plexo ferido
Aproxima-se o amor, já o vejo bem
Escoriações pelo rosto indefinido
Chega o amor perto de mim
Nas mãos, afeto
Nos cabelos amarfanhados, canções
Exala um cheiro lírico
Descalço, parece o amor não se importar
Com as pedras, paus e espinhos
No caminho cotidiano
Sussurra em meu ouvido o amor
(essa voz de eras, em todas as línguas)
- vem, poeta, me acompanhar

E eu, que lhe negara três vezes,
O sigo pela estrada que vai dar onde
A poesia mora.

quinta-feira

Árvore

inscrevo na palavra árvore
o teu nome e o meu.
raízes de poemas
se aprofundam em mim:
bebem de ti o que não
está na superfície.
colhemos um fruto
de véspera
com gosto indefinido
debaixo de frondosa sombra
nos sentamos:
meus versos ramificados
tuas folhas inda novas.
daqui cem anos, mulher,
quando não mais houver
você ou eu,
uma flor branca brotará
na minha poesia:
quem a vir não saberá
da terra que revolvemos
da semente conjugada
da rega feita de sonhos e distância
do signo que cresceu sem podas
- do teu nome e o meu.

terça-feira

Dorme

Os prédios e as torres de comunicação não dormem nunca, sempre imóveis, em pé, vigiando os céus e o que por baixo deles passa.

Dormem as gentes em distintas horas. Eu não, porque me ocupo em pensar na poesia que eu não poderia escrever.

Dormem a ira e a indiferença, dorme o riso, e a dor também há de dormir.
Dormirá o amor?

Fecho os olhos: não há sono. Você deve dormir, e eu devo cuidar do que nos foge às palavras.

O que tenho guardado em mim: dorme.
Aquilo que não sabemos: dorme.
Dorme o que é morte e o que é vida.

E o poema boceja.

segunda-feira

canção

pela testa
olhos
gosto na língua:
o sal
do suor
do pranto
do amor

pelas mãos
plexo
órgãos internos:
a força
dos gestos
das marcas
da vida

no pensamento
desejos
cinco sentidos:
o que coube
de ti
de ti
de ti

Ave

ave!, homem:
pássaro imóvel
observando a paisagem
esperando o que lhe cabe
voará?
- de certo que não...
asa de poeta é palavra
pluma de cores indecifráveis
tegumento ríspido
a espera do toque acidental
das circunstâncias.

quarta-feira

Milonga

Todas as manhãs
Enquanto saio para trabalhar
Visto um chapéu
- por estilo e proteção,
já que é enorme o calor em Cuiabá -
Que, em seu forro,
Traz uma canção e um nome de mulher.

A canção eu a assovio
Enquanto observo a paisagem
Da casa ao destino.
A mulher, eu a procuro
No cotidiano que me embala
Entre dias e tardes.

Quando, já à noitinha
Cansado chego em casa,
- Deito o chapéu à revelia,
sem, no entanto,
refletir sobre esse gesto -
É que encontro: mulher e canção,
Espalhados em minha pele.

E já não há o que fazer:
Meu coração dança um tango
Esperando a hora
De ouvi-las, canção e mulher,
Sobre coisas que não sabemos explicar.

sexta-feira

Cinema

sou o personagem mais triste
de todos os filmes tristes
que falam de amor.

mas quando você chega
com seu cheiro de cassis
saio do meu papel
esqueço o roteiro
e já não sei
como te dizer:

um mise-en-scène sentimental. 

quinta-feira

visto a melhor roupa:
aquela que me cabe
para a ocasião
de nunca encontrar-te.

no guarda-roupa bagunçado
guardo camisas limpas
com cheiro de amaciante
e da tua ausência.

meu paletó não enlaça teu vestido:
trama que se perdeu.

terça-feira

Descoberta

descubro tuas palavras escritas à mão
como descubro teus olhos me fitando
tua voz rouca que vira e mexe me diz
como se simples fosse o ato de falar
sobre tuas ninharias tua vida os dias

descubro teu véu tua forma o cotidiano
revelo teu sorriso a foto que vi e guardei
e em mim escondido um sentimento bom
nele me apoio minha vida uns escombros
neles o que brota uma flor indefinida

descubro o que há de ti em mim
e vôo buscando tuas asas
tua célere despedida
o gosto do que sonhei pra nós
Entre teu nome e o meu:
a saudade fazendo sala.

sábado

            *

lá fora
fogos de artifício
- comemoração
silêncio cá:
não me arrebento não.
           
            *

um vaga-lume solitário
percorre sua via crucis
sem saber que sua luz
desafia a cidade
           
            *

se for vir, nem venha
que eu te boto no teu lugar!
(aqui, bem dentro de mim)
se vier, venha logo
logos: perdi o raciocínio.

            *

se de mim sobrar algo
junte os pedaços
adicione algum tempero
e me embale pra viagem.

            *

falando nisso
não vou nem falar
em boca fechada
só cabe seu nome.


Cuiabá, 300

buracos nas vias
os bares e suas luzes
o sol secando roupas
molhando de suor os rostos
trabalhadores indo e vindo
maracanãs e sabiás
mangueiras e oitis.

a conta da energisa
o centro e a periferia
o futebol e os grafites
artistas intelectuais
vendedores ambulantes
pedintes estudantes
professores polícias.

os ricos em mansões envidraçadas
os pobres em bairros esparramados
rios e córregos torando a cidade:
meu poema.

(passarei: como passaram dom aquino, dicke, manoel de barros, sodré.
meu verso fica: não tem pra onde ir.
daqui a cem anos, outros poetas cantarão a cidade:
se ela resistir.)

sexta-feira

Amor

mais uma vez sentou-se o Amor ali
nas cadeiras de plástico
nas calçadas rachadas
no banco de madeira
corroído de cupins.
também o Amor pediu um pingado
e discutiu a situação política
do país
e falou do futebol de quinta
e tamborilou um samba.
logo o Amor! conhecido por todos
popular entre os jovens
- os mais velhos ressabiados...
simples para os amantes:
o Amor de sempre
e agora?!
trouxe um presente
não estava embrulhado
antecipei sua forma:

e desde então o guardo
no bolso esquerdo da camisa
onde também está a esperança
e a minha poesia.

sábado

Tramontana

encilho a vida
e galopo contra o tempo
procuro um verso
que nos abrigue
e nos anime

não houvesse destino
a que destino nos entregaríamos?
e no meio das coisas tolas
-o cotidiano dos meus olhos à tua procura
tua boca que não encontrou a minha
nossas mãos que não se embaraçaram
o gosto do até logo

e se fôssemos feitos daquela matéria
que vibra tal qual tramontana?

nossos corpos, buscando o norte,
seriam névoa e ternura.