quinta-feira

Meu Nome

Meu nome, eu não o sabia de princípio:
Foram as vozes familiares que me        [acostumaram a ele.
Nome que me coloca no mundo como alguém
Diferente das pedras e demais objetos do dia a dia: nome pelo qual me chamam, nome que inscrevo em documentos, nome que tantas vezes rabisquei entediado.
Mas que é, afinal, um nome? 

Essa identificação, uma pele que me deram, um biombo em que me caibo, um conjunto de fonemas designados: meu nome, mais consoantes que vogais, mais forma que conteúdo. 

Quando me olho no espelho, o que vejo é um agregado de matéria: carne, músculo, ossos, pelos. Acaso todas essas coisas caberão no meu nome? 

Sinto em mim o intervalo: de letra para letra, som para som. Busco uma rota alternativa no caminho no qual as palavras percorrem...

Procuro um nome de batismo, um nome que me vista, um nome que seja eu

Para quando, então, você o falar 
Que seja eu inteiro reverberando em ti.
Para quando o amor me surgir
Que consiga saber quem eu sou.

sábado

Nocturno n. 7

Plantas: flores ornamentais, grama, mato, árvores.

Animais: domésticos, aves, anfíbios & répteis, insetos.

Coisas: iluminação das ruas e casas de alvenaria e ligas de metal e caixas d'água e telhas de barro.

Gentes: das mais variadas cores, biotipos, personalidades, costumes.

Espaço: lua, planetas, estrelas, nuvens, sol.

Sons: buzinas, crianças brincando, latidos, cocoricós, motos, conversas, músicas, anúncios, sirenes.

Eu: 

e tudo respira.

segunda-feira

Ad Libitum

Nunca espero a visita
da face de meu pai
mas ela surge e
atravessa minha memória
com aqueles olhos de pai
e a voz de senhor-pai.

Deliberadamente, às vezes, 
esqueço dos cabelos brancos de meu pai
as rugas de pai
mãos firmes de grossas veias de pai
camisa-e-calça como fora 
acostumado. 

Com alguma frequência
me pego pensando 
nas palavras de meu pai
e em tudo o que ele não disse como pai
e as coisas de pai que ele fez: 
a educação às crianças.

Sempre pai, 
com as histórias de pai
e o jeito, que ficou em mim
- o de sempre pedir bença-pai -
e carrego nas costas 
não como fardo 
mas como capa.

De meu pai, o que não recordo, construo
e o vejo como filho:
deslumbro e vivo a poesia me dada. 

                                                        *

Dou um último adeus - silencioso - ao meu pai,
Barão das Quinquilharias. 
Eu o procuro nas pequenas coisas deixadas:
parafusos, grampos, fios,  folhas de papel intactas sobre
                                                                [sua escrivaninha...
Por que não levou, meu pai, todas as coisas com o senhor?
Foi desleixo ou foi cuidado teu ato de ir embora, de supetão,
deixando tuas ninharias ao alcance dos nossos olhos?

Não encontro meu pai no sofá de sempre:
há um espaço vazio entre as coisas e as palavras.
Quisera eu ser menino de novo, meu pai, 
e estar deitado em sua cama, olhos entreabertos
                                                              [fingindo dormir, 
te ouvindo me ninar com aquela música
que nunca mais esqueci:
mãezinha do céu, eu não sei rezar...

                                                    *

E como são as coisas: 
em cada roupa minha há uma costura de meu pai.
No futebol que não joguei, nas escolhas que não fiz
Toda a lacuna que houve - meu pai ajudou-me a completá-la.
E agora, nessa procissão, caminho sozinho: pai de mim mesmo. 
E que palavra pequena - pai - para caber toda a história de homem.
Sangue do seu sangue, meus olhos embotados 
Parecidos com os seus:
um negócio assim, meu pai, que era teu e eu emprestei
                                                                [sem data de devolução.
Me cobre um dia. 
Agora, eu cubro tua partida. 

Don Juan às avessas

soy un poeta
sin corazón:

nadie me llama
de Drummond

quarta-feira

Mil e tantas noites

silêncio na city:
na rua, só a rouquidão das motos
- entregadores de apps que nunca dormem -
e o latido dos cães
(certamente conversam entre si,
já que todos os seres têm algo a dizer)
laceram a noite.

mas aqui dentro uma orquestra
de quase imperceptíveis sonidos
me coloca no meu lugar no mundo
- sou o que sou e estou bem aqui
entre pensamentos e palavras
entre emoções e desejos

no interior do brasil
numa capital provinciana
meu coração naturalmente preocupado
ouve as notícias internacionais
e se consterna.

em quarentena
forçada pelas condições socioambientais
o quase poeta que habita em mim 
olha pela sacada 
as gentes mascaradas
os cuidados com a saúde
- a morte, que embala e nina
as gentes com nome e história...

é tarde, madrugada.
neste tempo
neste país
algum espectro terrível e monocórdico
nos dá sempre o mesmo tom
e as horas parecem sempre ser as mesmas
esgarçando, fio a fio, o destino da alegria. 

segunda-feira

Para escrever um poema

um poema
para ser escrito
demanda muita energia:
o poeta morre um pouquinho
a cada verso escrito
no hiato do que não diz
nas interpretações que lhe fazem

para escrever
o poeta precisa estar no não-lugar
que é onde os solitários pássaros cantam
anunciando o fim do mundo
e flores brotam no spleen esquecido.

é preciso que o poeta esteja
a par do que acontece no tempo presente etc.
e mitigue os corações preocupados
de homens e mulheres que não leem poesia.

no tempo presente o poeta vai sozinho
e sabe, como um sentimento que lhe fosse íntimo,
a hora em que tudo será ressignificado:
é ele quem conduz a palavra ao seu estado
ordinário
e assiste ao futuro ainda não anunciado.

Tardio

o último poema que li
foi do amigo e conterrâneo
Carlos de Amorim:
ainda existia esse país
e respirávamos um ar precário
mas singelo.
desde então passo dias e noites
revirando palavras soltas
olhando pra parede estriada
ignorando a louça suja sobre a pia.

forjo agora um novo sentimento
na bigorna do amanhã:
ele corta e coagula
e o meu peito gane
na incerteza do que ainda não é.

e de repente
esses versos que escrevo
encontrarão morada nos livros
bagunçados da estante empoeirada
ou desaparecerão
em meio ao calor enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece derreter¹



¹trecho de "calor", de Adriana Calcanhotto (2002)

sábado

Infância

quando criança
não tive amigos:
brincava com o outro eu
de emoldurar olhares
um sabiá sempre me assistia da goiabeira
cantava três vezes e eu negava
aquele mundo todo
um dia, pedi ao próprio deus
que me tornasse poeta
o sabiá, naquele dia, não cantou, não:
fez foi bicar uma goiaba
coçar a asa esquerda
e voar pro nunca mais
entendi, de repente, que
ser poeta é coisa que não se pede.

domingo

o dever do poeta

caberá ao poeta deste século
contar a história
do que restar de humanidade:
nas mãos do poeta
a palavra que se escreve
polifônica e inexplicável
captando o mundo que se arruina.

(pululam nos jornais letras mortas
nos noticiários nas leis no rosto
de quem morre a cada dia para se manter vivo há o gosto acre de silêncio e pesar)

é papel do poeta ler a vida
e explicar às futuras gerações
o que nos sucedeu:
como João, também cantaremos
o apocalipse
- não em sonhos e visões,
no cotidiano que se descortina
diariamente.

(fome, guerra, peste e morte em seus cavalos blindados atropelam as gentes todas que insistem em sobreviver)

o que sobra ao poeta
é inventar sua poesia
mas deve se apressar:
amanhã, talvez, as palavras já tenham
abandonado o dicionário
e sobrará só a barbárie
que não pensa em nos deixar.

segunda-feira

Chuva

chove em cuiabá
como se nunca chovera antes
e a palavra chuva
só existisse no romance
de gabriel garcía márquez
chove e sinto de novo
o cheiro de pátria, terra em que vivo
e trabalho e suo e ajo
chove uma água suja, de certo que sim:
ácida como a vida entre os trópicos
devastando a sede desses animais
tudo o que passou, chove
tudo o que virá, chove
e chove no beco do candeeiro
no goiabeiras
sobre os automóveis
entre os viadutos
chove em cuiabá:
como se não parecesse chuva
e fosse só um alento
gesto do mundo que ainda respira

sábado

Fruta

desprendeu-se do galho o amor
de maduro foi ao chão:
um fruto simbiótico
cor de gente, gosto de sonho
se intocado, adubará a terra
decompondo tudo aquilo que é memória
(os gestos palavras intenções
e também aquilo que não foi mas tomou lugar no que era nós)
alimento para os insetos
matéria viva que se transforma
- eis o mistério da fé:
o amor no chão, o chamamos podre
mas é um ventre que criará nova árvore
vida rompendo o amanhã.

quarta-feira

Vestígios

limpo minha casa
para apagar teus vestígios:
os fios de cabelo
- escuros como a primeira noite
desde que partiste -
teu reflexo no espelho
que inda consigo ver
e o cheiro de fruta misteriosa
impregnado pelo quarto
despejo em herméticos sacos plásticos
a poeira do que restou de nós:
pensamentos e palavras
atos e omissões
e qualquer indício de presença
os cacos do que não fomos
- com cuidado eu os descarto
pois cortam feito faca.
organizo meus cômodos
meus móveis repletos de tuas digitais
e cansado da lida
me sento no sofá que tanto te abrigou:
sou eu só, aqui, em mim.

segunda-feira

Carmesim

tuas unhas carmesim
rasgando minha embalagem:
meus dias e noites
meu nome e meus versos
dispostos, carmesim, sobre meu silêncio
- as palavras que não dissemos
voltaram ao dicionário:
restou um afeto,
que guardei com teu retrato
memória que se dissolverá.

tua boca carmesim
a voz ecoando em meus espaços:
a sala, o quarto, o ouvido
meu coração, carmesim, amplo ambiente
onde festejo e celebro a vida
e também enterro meus fracassos:
o amor que não houve
o filho que não existiu
o futuro que era vidro e se quebrou.

espero uma nova manhã carmesim
vermelha como o sangue das paixões
como um sonho que se sabe vivo
como a pele rubra do tempo
que renova minha crença e meu querer.

domingo

Fera

vive dentro de mim uma fera
que ora ruge e me assusta
com sua voz de intempérie
mandando que eu desista
de tudo
e de mim
e de você
e daquilo que nem ainda sei
                                    [se existirá
uma fera em mim:
bicho altivo, cor de ódio
faiscantes olhos iluminando
minha insegurança
meu medo da morte
minha vida medíocre
de poeta e professor
em mim mora um animal
que me mastiga e deglute
e eu viro um pedacinho de nada
palavra calada
verso triste
vez em quando esse bicho
dorme um sono profundo
cansado de tanto se mostrar grande
então eu aproveito
e o prendo de volta bem dentro de mim
(posto que o crio há anos)
e canto-lhe canções de ninar
afagando-lhe os pelos revoltos
com minha poesia e o amor
que trago entre os dedos.

sábado

Poema de aniversário

                                                  Para Bianca

as supernovas explodindo em galáxias distantes
onde ecoam tuas descobertas
tua constelação formada e cintilante
tuas órbitas e do que delas se desprende:
o universo na tua cabeça
- céu escuro às vezes
claro sorriso iluminando o dia:
renovando as possibilidades de mudança
pois tudo ecoa e vibra e vive
mesmo quando a terra seca
e faltam horizontes
(as nuvens são feitas de matéria mutável enquanto que o sonho é intransponível)
e tudo é cor: os traços da pele,
a luz que de ti emana,
e mesmo o que te assenta
e se cala,
e aquilo que ainda te falta
e vem de lá de onde não tem nome:
da dança dos astros, do teu corpo
- rota imprevisível, que ensaia uns passos
e sente e canta e quer.

ouve: também as estrelas emitem sons
e na primeira manhã do teu novo ciclo
seja sol, colorindo teu próprio caminho.