inscrevo na palavra árvore
o teu nome e o meu.
raízes de poemas
se aprofundam em mim:
bebem de ti o que não
está na superfície.
colhemos um fruto
de véspera
com gosto indefinido
debaixo de frondosa sombra
nos sentamos:
meus versos ramificados
tuas folhas inda novas.
daqui cem anos, mulher,
quando não mais houver
você ou eu,
uma flor branca brotará
na minha poesia:
quem a vir não saberá
da terra que revolvemos
da semente conjugada
da rega feita de sonhos e distância
do signo que cresceu sem podas
- do teu nome e o meu.
quinta-feira
Árvore
terça-feira
Dorme
Os prédios e as torres de comunicação não dormem nunca, sempre imóveis, em pé, vigiando os céus e o que por baixo deles passa.
Dormem as gentes em distintas horas. Eu não, porque me ocupo em pensar na poesia que eu não poderia escrever.
Dormem a ira e a indiferença, dorme o riso, e a dor também há de dormir.
Dormirá o amor?
Fecho os olhos: não há sono. Você deve dormir, e eu devo cuidar do que nos foge às palavras.
O que tenho guardado em mim: dorme.
Aquilo que não sabemos: dorme.
Dorme o que é morte e o que é vida.
E o poema boceja.
segunda-feira
canção
pela testa
olhos
gosto na língua:
o sal
do suor
do pranto
do amor
pelas mãos
plexo
órgãos internos:
a força
dos gestos
das marcas
da vida
no pensamento
desejos
cinco sentidos:
o que coube
de ti
de ti
de ti
Ave
pássaro imóvel
observando a paisagem
esperando o que lhe cabe
voará?
- de certo que não...
asa de poeta é palavra
pluma de cores indecifráveis
tegumento ríspido
a espera do toque acidental
das circunstâncias.
quarta-feira
Milonga
Enquanto saio para trabalhar
Visto um chapéu
- por estilo e proteção,
já que é enorme o calor em Cuiabá -
Que, em seu forro,
Traz uma canção e um nome de mulher.
Enquanto observo a paisagem
Da casa ao destino.
A mulher, eu a procuro
No cotidiano que me embala
Entre dias e tardes.
Cansado chego em casa,
- Deito o chapéu à revelia,
sem, no entanto,
refletir sobre esse gesto -
É que encontro: mulher e canção,
Espalhados em minha pele.
Meu coração dança um tango
Esperando a hora
De ouvi-las, canção e mulher,
Sobre coisas que não sabemos explicar.
sexta-feira
Cinema
sou o personagem mais triste
de todos os filmes tristes
que falam de amor.
mas quando você chega
com seu cheiro de cassis
saio do meu papel
esqueço o roteiro
e já não sei
como te dizer:
um mise-en-scène sentimental.
quinta-feira
terça-feira
Descoberta
descubro tuas palavras escritas à mão
como descubro teus olhos me fitando
tua voz rouca que vira e mexe me diz
como se simples fosse o ato de falar
sobre tuas ninharias tua vida os dias
descubro teu véu tua forma o cotidiano
revelo teu sorriso a foto que vi e guardei
e em mim escondido um sentimento bom
nele me apoio minha vida uns escombros
neles o que brota uma flor indefinida
descubro o que há de ti em mim
e vôo buscando tuas asas
tua célere despedida
o gosto do que sonhei pra nós
Entre teu nome e o meu:
a saudade fazendo sala.
sábado
lá fora
fogos de artifício
- comemoração
silêncio cá:
não me arrebento não.
*
um vaga-lume solitário
percorre sua via crucis
sem saber que sua luz
desafia a cidade
*
se for vir, nem venha
que eu te boto no teu lugar!
(aqui, bem dentro de mim)
se vier, venha logo
logos: perdi o raciocínio.
*
se de mim sobrar algo
junte os pedaços
adicione algum tempero
e me embale pra viagem.
*
falando nisso
não vou nem falar
em boca fechada
só cabe seu nome.
Cuiabá, 300
os bares e suas luzes
o sol secando roupas
molhando de suor os rostos
trabalhadores indo e vindo
maracanãs e sabiás
mangueiras e oitis.
a conta da energisa
o centro e a periferia
o futebol e os grafites
artistas intelectuais
vendedores ambulantes
pedintes estudantes
professores polícias.
os ricos em mansões envidraçadas
os pobres em bairros esparramados
rios e córregos torando a cidade:
meu poema.
(passarei: como passaram dom aquino, dicke, manoel de barros, sodré.
meu verso fica: não tem pra onde ir.
daqui a cem anos, outros poetas cantarão a cidade:
se ela resistir.)
sexta-feira
Amor
nas cadeiras de plástico
nas calçadas rachadas
no banco de madeira
corroído de cupins.
também o Amor pediu um pingado
e discutiu a situação política
do país
e falou do futebol de quinta
e tamborilou um samba.
logo o Amor! conhecido por todos
popular entre os jovens
- os mais velhos ressabiados...
simples para os amantes:
o Amor de sempre
e agora?!
trouxe um presente
não estava embrulhado
antecipei sua forma:
e desde então o guardo
no bolso esquerdo da camisa
onde também está a esperança
e a minha poesia.
sábado
Tramontana
e galopo contra o tempo
procuro um verso
que nos abrigue
e nos anime
não houvesse destino
a que destino nos entregaríamos?
e no meio das coisas tolas
-o cotidiano dos meus olhos à tua procura
tua boca que não encontrou a minha
nossas mãos que não se embaraçaram
o gosto do até logo
e se fôssemos feitos daquela matéria
que vibra tal qual tramontana?
nossos corpos, buscando o norte,
seriam névoa e ternura.
domingo
Poema Noturno
em noites de intenso calor
quando o mormaço impede o sono
leio uns poemas que me ajudam a sonhar
e penso na mulher
- que eu ainda não amo
e penso no amanhã
- que eu ainda não vejo
e vislumbro surgir no espaço das horas
todos os verbos que não escrevi.
de minha janela gradeada
por onde passa o vento morno
e os incólumes desejos
olho as casas
- e seus telhados de amianto
olho os prédios
- e suas luzes fluorescentes
e imagino o dia em que serei velho
como as palavras que admiro e decoro.
nesse intervalo entre o eu e o tu
é que se esgueira a poesia
salpicada de sentido
e o poeta sente o dever
de registrar o instante
- que ainda não existe
de perceber o afeto
- que já tenha acabado
e de viver participando das remissões
da vida.
quinta-feira
Algum poema
que transforme o tédio
em vendaval
imagino um poema denúncia
que vá atentar contra
o sistema estabelecido
reflito um poema manifesto
um grito em fúria
que não pode ser calado
sonho com um poema rebelde
um poema que derrube governos
mantra de liberdade e progresso
- escrevo um poema de amor.
sábado
antipoema.
Aqui quem fala é o primo pobre, mais um sobrevivente
desse século, de segunda
década
em que se atropela de barbarismos
que não são vícios de linguagem
senão matéria viva e observável.
Até agora eu não achei a chave, Drummond.
Engolida pela Justiça,
que prende como quer
(na muralha, em pé, mais um cidadão José.)
deve ter entrado pelo cano
e agora, o que será da palavra?
Não vim ao mundo catar feijão, João
antes: eu nego o poema
quero a antipoesia
(eu era a carne, agora sou a própria navalha!)
o que nos consome
em tragédia e silêncio.