Já não importam:
nem meus olhos cansados no espelho;
nem as tristes memórias da infância;
nem o que cresce desordenado dentro
[de mim.
Nada, nada disso importa:
a pele eriçada pelo frio;
as leituras de domingo à noite;
os filmes que vi sozinho,
sonhando em ser artista.
Não importará o dito
e o desdito do passado,
nem importou quantas vezes
os planos futuros tenham se modificado, simbióticos,
como uma segunda pele
abrangendo tudo aquilo que eu quis viver. Quando você chega eu sou outro,
alguma coisa que nem sei desvendar,
um menino descobrindo o mundo
e os teus olhos,
querendo desbravar teu coração,
ouvindo tua voz que me desloca
[e conforta.
Quando você parte,
quem sou eu mesmo?,
centrado no que não sei,
mas que imagino e sinto e vivo.
domingo
Importância
Rara flor
eu contei
estrelas nos teus olhos
enquanto contavas
das tuas raízes
rara flor
brotando em meus espaços
uma forma pressentida
o cheiro de memórias
circunscritas pelas palavras
(as que dizemos e as que calamos)
enquanto eu cantava:
você contando comigo
- terra adubada
crescendo em mim
orquídea azul
colhida com minha poesia
um conto fantástico
desses, que não sabemos o final.
quinta-feira
Espelho
quando hoje acordei
ainda fazia escuro
acendi a luz do banheiro
e me olhei no único espelho da casa:
era eu mesmo quem refletia ali
- olheiras profundas,
rosto envelhecido
poros, pelos, cicatrizes,
cartilagem, lembranças.
e pela pequena ventana
uma brisa, sopro de existência:
havia vida lá fora
e o mundo inda respirava.
haveria àquela hora da manhã
quem saísse para o trabalho
quem dormisse nos lençois
[amarrotados de amor
quem chorasse e quem nascesse.
e haja eu para tantos acontecimentos!
num instante
fui tantos e outros:
Mas quantos Césares fui?
terça-feira
Corpo
e eu o incenso com o cigarro
e eu o benzo com a cerveja
em línguas mortas eu conclamo
(e condeno)
um Deussurdo
exorto meus fieis
- os demônios interiores
com quem ceio e combato.
meu corpo é o que me cabe
nessa segunda década do século xxi
como tantos outros
que negam Vênus
esteriótipos
padrões estéticos
meu corpo riscado marcado
atravessado de gente.
meu corpo que sente e sofre
e quer e é:
Existo nele e nele vou morrer:
um templo de alguma civilização
que só existe em mim.
quinta-feira
As mãos
As linhas das minhas mãos
segredam um poema de amor.
Nas pontas dos dedos
as impressões digitais
que me diferenciam de outros
da minha espécie
me fazendo único;
gente.
Nas cicatrizes, nas pintas
nos calos
nas unhas: leuconíquia.
Sob a pele, que ora enruga,
ora resseca:
há o labor de um poema.
Nessas mesmas mãos
dadas ao trabalho e ao amor
que seguram objetos
que escrevem mensagens
que aplaudem e se comunicam
- mãos de poeta.
São nelas que mora o poema
aquele que eu escrevo
e que chega aos olhos
sabe-se lá de quem
e que o sentirá
- préstimo ou provocação -
com outros sentidos:
minhas mãos escrevem
um poema de amor;
eu amo.
segunda-feira
Passagem no tempo VII
minha poesia,
arena de disputas:
ruge o amor
avança o poema
meu coração espraiado
desfeito em areia dos tempos
e a plateia, a delirar:
que vença o que sobrar de mim.
nesse coliseu, já não há imperador.
domingo
De novo, o amor
Pronto, o amor se estrepou.
(Drummond)
As vestes rasgadas, o lábio gretado
Levanta-se o amor mais uma vez
Verte sangue o plexo ferido
Aproxima-se o amor, já o vejo bem
Escoriações pelo rosto indefinido
Chega o amor perto de mim
Nas mãos, afeto
Nos cabelos amarfanhados, canções
Exala um cheiro lírico
Descalço, parece o amor não se importar
Com as pedras, paus e espinhos
No caminho cotidiano
Sussurra em meu ouvido o amor
(essa voz de eras, em todas as línguas)
- vem, poeta, me acompanhar
E eu, que lhe negara três vezes,
O sigo pela estrada que vai dar onde
A poesia mora.
quinta-feira
Árvore
inscrevo na palavra árvore
o teu nome e o meu.
raízes de poemas
se aprofundam em mim:
bebem de ti o que não
está na superfície.
colhemos um fruto
de véspera
com gosto indefinido
debaixo de frondosa sombra
nos sentamos:
meus versos ramificados
tuas folhas inda novas.
daqui cem anos, mulher,
quando não mais houver
você ou eu,
uma flor branca brotará
na minha poesia:
quem a vir não saberá
da terra que revolvemos
da semente conjugada
da rega feita de sonhos e distância
do signo que cresceu sem podas
- do teu nome e o meu.
terça-feira
Dorme
Os prédios e as torres de comunicação não dormem nunca, sempre imóveis, em pé, vigiando os céus e o que por baixo deles passa.
Dormem as gentes em distintas horas. Eu não, porque me ocupo em pensar na poesia que eu não poderia escrever.
Dormem a ira e a indiferença, dorme o riso, e a dor também há de dormir.
Dormirá o amor?
Fecho os olhos: não há sono. Você deve dormir, e eu devo cuidar do que nos foge às palavras.
O que tenho guardado em mim: dorme.
Aquilo que não sabemos: dorme.
Dorme o que é morte e o que é vida.
E o poema boceja.
segunda-feira
canção
pela testa
olhos
gosto na língua:
o sal
do suor
do pranto
do amor
pelas mãos
plexo
órgãos internos:
a força
dos gestos
das marcas
da vida
no pensamento
desejos
cinco sentidos:
o que coube
de ti
de ti
de ti
Ave
pássaro imóvel
observando a paisagem
esperando o que lhe cabe
voará?
- de certo que não...
asa de poeta é palavra
pluma de cores indecifráveis
tegumento ríspido
a espera do toque acidental
das circunstâncias.
quarta-feira
Milonga
Enquanto saio para trabalhar
Visto um chapéu
- por estilo e proteção,
já que é enorme o calor em Cuiabá -
Que, em seu forro,
Traz uma canção e um nome de mulher.
Enquanto observo a paisagem
Da casa ao destino.
A mulher, eu a procuro
No cotidiano que me embala
Entre dias e tardes.
Cansado chego em casa,
- Deito o chapéu à revelia,
sem, no entanto,
refletir sobre esse gesto -
É que encontro: mulher e canção,
Espalhados em minha pele.
Meu coração dança um tango
Esperando a hora
De ouvi-las, canção e mulher,
Sobre coisas que não sabemos explicar.
sexta-feira
Cinema
sou o personagem mais triste
de todos os filmes tristes
que falam de amor.
mas quando você chega
com seu cheiro de cassis
saio do meu papel
esqueço o roteiro
e já não sei
como te dizer:
um mise-en-scène sentimental.
quinta-feira
terça-feira
Descoberta
descubro tuas palavras escritas à mão
como descubro teus olhos me fitando
tua voz rouca que vira e mexe me diz
como se simples fosse o ato de falar
sobre tuas ninharias tua vida os dias
descubro teu véu tua forma o cotidiano
revelo teu sorriso a foto que vi e guardei
e em mim escondido um sentimento bom
nele me apoio minha vida uns escombros
neles o que brota uma flor indefinida
descubro o que há de ti em mim
e vôo buscando tuas asas
tua célere despedida
o gosto do que sonhei pra nós
Entre teu nome e o meu:
a saudade fazendo sala.