quarta-feira

Mil e tantas noites

silêncio na city:
na rua, só a rouquidão das motos
- entregadores de apps que nunca dormem -
e o latido dos cães
(certamente conversam entre si,
já que todos os seres têm algo a dizer)
laceram a noite.

mas aqui dentro uma orquestra
de quase imperceptíveis sonidos
me coloca no meu lugar no mundo
- sou o que sou e estou bem aqui
entre pensamentos e palavras
entre emoções e desejos

no interior do brasil
numa capital provinciana
meu coração naturalmente preocupado
ouve as notícias internacionais
e se consterna.

em quarentena
forçada pelas condições socioambientais
o quase poeta que habita em mim 
olha pela sacada 
as gentes mascaradas
os cuidados com a saúde
- a morte, que embala e nina
as gentes com nome e história...

é tarde, madrugada.
neste tempo
neste país
algum espectro terrível e monocórdico
nos dá sempre o mesmo tom
e as horas parecem sempre ser as mesmas
esgarçando, fio a fio, o destino da alegria. 

segunda-feira

Para escrever um poema

um poema
para ser escrito
demanda muita energia:
o poeta morre um pouquinho
a cada verso escrito
no hiato do que não diz
nas interpretações que lhe fazem

para escrever
o poeta precisa estar no não-lugar
que é onde os solitários pássaros cantam
anunciando o fim do mundo
e flores brotam no spleen esquecido.

é preciso que o poeta esteja
a par do que acontece no tempo presente etc.
e mitigue os corações preocupados
de homens e mulheres que não leem poesia.

no tempo presente o poeta vai sozinho
e sabe, como um sentimento que lhe fosse íntimo,
a hora em que tudo será ressignificado:
é ele quem conduz a palavra ao seu estado
ordinário
e assiste ao futuro ainda não anunciado.

Tardio

o último poema que li
foi do amigo e conterrâneo
Carlos de Amorim:
ainda existia esse país
e respirávamos um ar precário
mas singelo.
desde então passo dias e noites
revirando palavras soltas
olhando pra parede estriada
ignorando a louça suja sobre a pia.

forjo agora um novo sentimento
na bigorna do amanhã:
ele corta e coagula
e o meu peito gane
na incerteza do que ainda não é.

e de repente
esses versos que escrevo
encontrarão morada nos livros
bagunçados da estante empoeirada
ou desaparecerão
em meio ao calor enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece derreter¹



¹trecho de "calor", de Adriana Calcanhotto (2002)

sábado

Infância

quando criança
não tive amigos:
brincava com o outro eu
de emoldurar olhares
um sabiá sempre me assistia da goiabeira
cantava três vezes e eu negava
aquele mundo todo
um dia, pedi ao próprio deus
que me tornasse poeta
o sabiá, naquele dia, não cantou, não:
fez foi bicar uma goiaba
coçar a asa esquerda
e voar pro nunca mais
entendi, de repente, que
ser poeta é coisa que não se pede.

domingo

o dever do poeta

caberá ao poeta deste século
contar a história
do que restar de humanidade:
nas mãos do poeta
a palavra que se escreve
polifônica e inexplicável
captando o mundo que se arruina.

(pululam nos jornais letras mortas
nos noticiários nas leis no rosto
de quem morre a cada dia para se manter vivo há o gosto acre de silêncio e pesar)

é papel do poeta ler a vida
e explicar às futuras gerações
o que nos sucedeu:
como João, também cantaremos
o apocalipse
- não em sonhos e visões,
no cotidiano que se descortina
diariamente.

(fome, guerra, peste e morte em seus cavalos blindados atropelam as gentes todas que insistem em sobreviver)

o que sobra ao poeta
é inventar sua poesia
mas deve se apressar:
amanhã, talvez, as palavras já tenham
abandonado o dicionário
e sobrará só a barbárie
que não pensa em nos deixar.

segunda-feira

Chuva

chove em cuiabá
como se nunca chovera antes
e a palavra chuva
só existisse no romance
de gabriel garcía márquez
chove e sinto de novo
o cheiro de pátria, terra em que vivo
e trabalho e suo e ajo
chove uma água suja, de certo que sim:
ácida como a vida entre os trópicos
devastando a sede desses animais
tudo o que passou, chove
tudo o que virá, chove
e chove no beco do candeeiro
no goiabeiras
sobre os automóveis
entre os viadutos
chove em cuiabá:
como se não parecesse chuva
e fosse só um alento
gesto do mundo que ainda respira

sábado

Fruta

desprendeu-se do galho o amor
de maduro foi ao chão:
um fruto simbiótico
cor de gente, gosto de sonho
se intocado, adubará a terra
decompondo tudo aquilo que é memória
(os gestos palavras intenções
e também aquilo que não foi mas tomou lugar no que era nós)
alimento para os insetos
matéria viva que se transforma
- eis o mistério da fé:
o amor no chão, o chamamos podre
mas é um ventre que criará nova árvore
vida rompendo o amanhã.

quarta-feira

Vestígios

limpo minha casa
para apagar teus vestígios:
os fios de cabelo
- escuros como a primeira noite
desde que partiste -
teu reflexo no espelho
que inda consigo ver
e o cheiro de fruta misteriosa
impregnado pelo quarto
despejo em herméticos sacos plásticos
a poeira do que restou de nós:
pensamentos e palavras
atos e omissões
e qualquer indício de presença
os cacos do que não fomos
- com cuidado eu os descarto
pois cortam feito faca.
organizo meus cômodos
meus móveis repletos de tuas digitais
e cansado da lida
me sento no sofá que tanto te abrigou:
sou eu só, aqui, em mim.

segunda-feira

Carmesim

tuas unhas carmesim
rasgando minha embalagem:
meus dias e noites
meu nome e meus versos
dispostos, carmesim, sobre meu silêncio
- as palavras que não dissemos
voltaram ao dicionário:
restou um afeto,
que guardei com teu retrato
memória que se dissolverá.

tua boca carmesim
a voz ecoando em meus espaços:
a sala, o quarto, o ouvido
meu coração, carmesim, amplo ambiente
onde festejo e celebro a vida
e também enterro meus fracassos:
o amor que não houve
o filho que não existiu
o futuro que era vidro e se quebrou.

espero uma nova manhã carmesim
vermelha como o sangue das paixões
como um sonho que se sabe vivo
como a pele rubra do tempo
que renova minha crença e meu querer.

domingo

Fera

vive dentro de mim uma fera
que ora ruge e me assusta
com sua voz de intempérie
mandando que eu desista
de tudo
e de mim
e de você
e daquilo que nem ainda sei
                                    [se existirá
uma fera em mim:
bicho altivo, cor de ódio
faiscantes olhos iluminando
minha insegurança
meu medo da morte
minha vida medíocre
de poeta e professor
em mim mora um animal
que me mastiga e deglute
e eu viro um pedacinho de nada
palavra calada
verso triste
vez em quando esse bicho
dorme um sono profundo
cansado de tanto se mostrar grande
então eu aproveito
e o prendo de volta bem dentro de mim
(posto que o crio há anos)
e canto-lhe canções de ninar
afagando-lhe os pelos revoltos
com minha poesia e o amor
que trago entre os dedos.

sábado

Poema de aniversário

                                                  Para Bianca

as supernovas explodindo em galáxias distantes
onde ecoam tuas descobertas
tua constelação formada e cintilante
tuas órbitas e do que delas se desprende:
o universo na tua cabeça
- céu escuro às vezes
claro sorriso iluminando o dia:
renovando as possibilidades de mudança
pois tudo ecoa e vibra e vive
mesmo quando a terra seca
e faltam horizontes
(as nuvens são feitas de matéria mutável enquanto que o sonho é intransponível)
e tudo é cor: os traços da pele,
a luz que de ti emana,
e mesmo o que te assenta
e se cala,
e aquilo que ainda te falta
e vem de lá de onde não tem nome:
da dança dos astros, do teu corpo
- rota imprevisível, que ensaia uns passos
e sente e canta e quer.

ouve: também as estrelas emitem sons
e na primeira manhã do teu novo ciclo
seja sol, colorindo teu próprio caminho.

quarta-feira

Manual de Ícaro

para voar, você precisará de:

- duas asas inventadas, feitas de tempo etéreo;
- um tanto de amplo espaço, que pode ser medido pela distância da saudade;
- ternura convém, como proteção e
- um sopro forte de coragem, a de voltar e a de olhar a vida pelo alto.

as asas podem ser feitas misturando 'liberdade de saber quem se é'
e 'memórias compartilhadas de pertencimento',
para dar liga.

as asas devem ser cuidadosamente abertas: observe se nelas não há sombras do medo.

as plenas condições de voo se dão
nas primeiras horas do dia
quando o sol ainda não despontou
e o céu ainda tem a cor do amor
e dos amantes.

ao planar, se lembre do mais importante:
manter o equilibrio e o querer-bem.

domingo

De repente

de repente
foi um vento
que passou pela gente
e dispersou palavras
- as que falam de nós
e despediu as nuvens
cinzas grossas
que cobriam um afeto
e bagunçou meu jeito de poeta
e meu poema ficou
desse jeito assim:
enventado.
                              *

de repente, não mais que de repente
esse vento trouxe o que se sente:
um gosto de nós
que inventamos na pele
do tempo.

sexta-feira

Três palavras

o homem circundado de estrelas
hospeda no céu de sua boca
três palavras
capazes de calar o mundo:
não é tempo ainda que as diga
embora estejam
esperando liberdade
para ecoar por onde quer
que seja preciso ouvi-las:
no trabalho na rua por entre
os carros e também nas antenas
de comunicação e em teus ouvidos

o homem contempla o espaço
onde moram os deuses
e onde cabe o retrato da mulher
a lembrança daquilo
que ainda está por vir
e as três palavras
impronunciáveis
mas vivas dentro desse corpo,
universo.

terça-feira

Dialética

pergunta se te amo desse jeito.
decerto que não:
amor não dá assim na gente
nem se identifica logo de cara
não tá na pele no gosto no cheiro
amor não se colhe nem se contrai
amor não é roupa que serve
e se não serve se remenda
nem é comida que esfria
e, passada a fome, se esquenta
pra de novo comer.
assim não te amo: procurando amor.

pergunta, e perceba o meu amor:
o vão entre os dedos
que se encaixam
revelando a imagem de um quebra-cabeça sentimental;
a voz, que de tua boca sai,
urgentes ondas sonoras
que logo chegam aos meus ouvidos
e o cérebro decodifica
- afeto e memória;
o olhar que se reconhece:
o amor habita na luz
quando me vê tal como eu sou
e quando te vejo e
tudo o que é.
amo o que está no tempo de nós
as horas, os dias, repetitivos como são,
ressignificados como os tornamos;
amo o espaço entre os dois
as cercanias dos corpos
o limite do que toca.
amo o que não somos:
as palavras que não dissemos
o futuro que não se deixa conhecer
assim te amo: encontrando em mim
o amor.