limpo minha casa
para apagar teus vestígios:
os fios de cabelo
- escuros como a primeira noite
desde que partiste -
teu reflexo no espelho
que inda consigo ver
e o cheiro de fruta misteriosa
impregnado pelo quarto
despejo em herméticos sacos plásticos
a poeira do que restou de nós:
pensamentos e palavras
atos e omissões
e qualquer indício de presença
os cacos do que não fomos
- com cuidado eu os descarto
pois cortam feito faca.
organizo meus cômodos
meus móveis repletos de tuas digitais
e cansado da lida
me sento no sofá que tanto te abrigou:
sou eu só, aqui, em mim.
quarta-feira
Vestígios
segunda-feira
Carmesim
tuas unhas carmesim
rasgando minha embalagem:
meus dias e noites
meu nome e meus versos
dispostos, carmesim, sobre meu silêncio
- as palavras que não dissemos
voltaram ao dicionário:
restou um afeto,
que guardei com teu retrato
memória que se dissolverá.
tua boca carmesim
a voz ecoando em meus espaços:
a sala, o quarto, o ouvido
meu coração, carmesim, amplo ambiente
onde festejo e celebro a vida
e também enterro meus fracassos:
o amor que não houve
o filho que não existiu
o futuro que era vidro e se quebrou.
espero uma nova manhã carmesim
vermelha como o sangue das paixões
como um sonho que se sabe vivo
como a pele rubra do tempo
que renova minha crença e meu querer.
domingo
Fera
vive dentro de mim uma fera
que ora ruge e me assusta
com sua voz de intempérie
mandando que eu desista
de tudo
e de mim
e de você
e daquilo que nem ainda sei
[se existirá
uma fera em mim:
bicho altivo, cor de ódio
faiscantes olhos iluminando
minha insegurança
meu medo da morte
minha vida medíocre
de poeta e professor
em mim mora um animal
que me mastiga e deglute
e eu viro um pedacinho de nada
palavra calada
verso triste
vez em quando esse bicho
dorme um sono profundo
cansado de tanto se mostrar grande
então eu aproveito
e o prendo de volta bem dentro de mim
(posto que o crio há anos)
e canto-lhe canções de ninar
afagando-lhe os pelos revoltos
com minha poesia e o amor
que trago entre os dedos.
sábado
Poema de aniversário
onde ecoam tuas descobertas
tua constelação formada e cintilante
tuas órbitas e do que delas se desprende:
o universo na tua cabeça
- céu escuro às vezes
claro sorriso iluminando o dia:
renovando as possibilidades de mudança
pois tudo ecoa e vibra e vive
mesmo quando a terra seca
e faltam horizontes
(as nuvens são feitas de matéria mutável enquanto que o sonho é intransponível)
e tudo é cor: os traços da pele,
a luz que de ti emana,
e mesmo o que te assenta
e se cala,
e aquilo que ainda te falta
e vem de lá de onde não tem nome:
da dança dos astros, do teu corpo
- rota imprevisível, que ensaia uns passos
e sente e canta e quer.
e na primeira manhã do teu novo ciclo
seja sol, colorindo teu próprio caminho.
quarta-feira
Manual de Ícaro
para voar, você precisará de:
- duas asas inventadas, feitas de tempo etéreo;
- um tanto de amplo espaço, que pode ser medido pela distância da saudade;
- ternura convém, como proteção e
- um sopro forte de coragem, a de voltar e a de olhar a vida pelo alto.
as asas podem ser feitas misturando 'liberdade de saber quem se é'
e 'memórias compartilhadas de pertencimento',
para dar liga.
as asas devem ser cuidadosamente abertas: observe se nelas não há sombras do medo.
as plenas condições de voo se dão
nas primeiras horas do dia
quando o sol ainda não despontou
e o céu ainda tem a cor do amor
e dos amantes.
ao planar, se lembre do mais importante:
manter o equilibrio e o querer-bem.
domingo
De repente
de repente
foi um vento
que passou pela gente
e dispersou palavras
- as que falam de nós
e despediu as nuvens
cinzas grossas
que cobriam um afeto
e bagunçou meu jeito de poeta
e meu poema ficou
desse jeito assim:
enventado.
*
de repente, não mais que de repente
esse vento trouxe o que se sente:
um gosto de nós
que inventamos na pele
do tempo.
sexta-feira
Três palavras
o homem circundado de estrelas
hospeda no céu de sua boca
três palavras
capazes de calar o mundo:
não é tempo ainda que as diga
embora estejam
esperando liberdade
para ecoar por onde quer
que seja preciso ouvi-las:
no trabalho na rua por entre
os carros e também nas antenas
de comunicação e em teus ouvidos
o homem contempla o espaço
onde moram os deuses
e onde cabe o retrato da mulher
a lembrança daquilo
que ainda está por vir
e as três palavras
impronunciáveis
mas vivas dentro desse corpo,
universo.
terça-feira
Dialética
pergunta se te amo desse jeito.
decerto que não:
amor não dá assim na gente
nem se identifica logo de cara
não tá na pele no gosto no cheiro
amor não se colhe nem se contrai
amor não é roupa que serve
e se não serve se remenda
nem é comida que esfria
e, passada a fome, se esquenta
pra de novo comer.
assim não te amo: procurando amor.
pergunta, e perceba o meu amor:
o vão entre os dedos
que se encaixam
revelando a imagem de um quebra-cabeça sentimental;
a voz, que de tua boca sai,
urgentes ondas sonoras
que logo chegam aos meus ouvidos
e o cérebro decodifica
- afeto e memória;
o olhar que se reconhece:
o amor habita na luz
quando me vê tal como eu sou
e quando te vejo e
tudo o que é.
amo o que está no tempo de nós
as horas, os dias, repetitivos como são,
ressignificados como os tornamos;
amo o espaço entre os dois
as cercanias dos corpos
o limite do que toca.
amo o que não somos:
as palavras que não dissemos
o futuro que não se deixa conhecer
assim te amo: encontrando em mim
o amor.
segunda-feira
Quintal
o amor é o meu quintal:
nele disperso sementes
de palavras
que crescem como mato e
adornam esse chão de solo seco
- as circunstâncias que me ocorrem.
o amor é um pedaço de terra
onde plantei com esmero
uma árvore de sombra boa
para que tu descanse
das tuas jornadas
quando quiseres.
o amor: tive que retirar
dele os cascalhos, restos de
palavras mortas, raízes antigas
amargas.
no amor brincam os bichos
as aves, a procura de alimento
borboletas formigas besouros
passeiam pelo amor...
e é nesse amplo espaço
- que não é organizado como um
jardim artificial -
que te espero:
se vens, talvez plantaremos juntos
flores desconhecidas.
domingo
Importância
Já não importam:
nem meus olhos cansados no espelho;
nem as tristes memórias da infância;
nem o que cresce desordenado dentro
[de mim.
Nada, nada disso importa:
a pele eriçada pelo frio;
as leituras de domingo à noite;
os filmes que vi sozinho,
sonhando em ser artista.
Não importará o dito
e o desdito do passado,
nem importou quantas vezes
os planos futuros tenham se modificado, simbióticos,
como uma segunda pele
abrangendo tudo aquilo que eu quis viver. Quando você chega eu sou outro,
alguma coisa que nem sei desvendar,
um menino descobrindo o mundo
e os teus olhos,
querendo desbravar teu coração,
ouvindo tua voz que me desloca
[e conforta.
Quando você parte,
quem sou eu mesmo?,
centrado no que não sei,
mas que imagino e sinto e vivo.
Rara flor
eu contei
estrelas nos teus olhos
enquanto contavas
das tuas raízes
rara flor
brotando em meus espaços
uma forma pressentida
o cheiro de memórias
circunscritas pelas palavras
(as que dizemos e as que calamos)
enquanto eu cantava:
você contando comigo
- terra adubada
crescendo em mim
orquídea azul
colhida com minha poesia
um conto fantástico
desses, que não sabemos o final.
quinta-feira
Espelho
quando hoje acordei
ainda fazia escuro
acendi a luz do banheiro
e me olhei no único espelho da casa:
era eu mesmo quem refletia ali
- olheiras profundas,
rosto envelhecido
poros, pelos, cicatrizes,
cartilagem, lembranças.
e pela pequena ventana
uma brisa, sopro de existência:
havia vida lá fora
e o mundo inda respirava.
haveria àquela hora da manhã
quem saísse para o trabalho
quem dormisse nos lençois
[amarrotados de amor
quem chorasse e quem nascesse.
e haja eu para tantos acontecimentos!
num instante
fui tantos e outros:
Mas quantos Césares fui?
terça-feira
Corpo
e eu o incenso com o cigarro
e eu o benzo com a cerveja
em línguas mortas eu conclamo
(e condeno)
um Deussurdo
exorto meus fieis
- os demônios interiores
com quem ceio e combato.
meu corpo é o que me cabe
nessa segunda década do século xxi
como tantos outros
que negam Vênus
esteriótipos
padrões estéticos
meu corpo riscado marcado
atravessado de gente.
meu corpo que sente e sofre
e quer e é:
Existo nele e nele vou morrer:
um templo de alguma civilização
que só existe em mim.
quinta-feira
As mãos
As linhas das minhas mãos
segredam um poema de amor.
Nas pontas dos dedos
as impressões digitais
que me diferenciam de outros
da minha espécie
me fazendo único;
gente.
Nas cicatrizes, nas pintas
nos calos
nas unhas: leuconíquia.
Sob a pele, que ora enruga,
ora resseca:
há o labor de um poema.
Nessas mesmas mãos
dadas ao trabalho e ao amor
que seguram objetos
que escrevem mensagens
que aplaudem e se comunicam
- mãos de poeta.
São nelas que mora o poema
aquele que eu escrevo
e que chega aos olhos
sabe-se lá de quem
e que o sentirá
- préstimo ou provocação -
com outros sentidos:
minhas mãos escrevem
um poema de amor;
eu amo.
segunda-feira
Passagem no tempo VII
minha poesia,
arena de disputas:
ruge o amor
avança o poema
meu coração espraiado
desfeito em areia dos tempos
e a plateia, a delirar:
que vença o que sobrar de mim.
nesse coliseu, já não há imperador.